Crônica
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    NÃO É HORA DE COMEMORAR, MAS DE TEMER


    Vejo com muita preocupação e muita tristeza o estado de coisas em que vivemos e aquelas que virão daqui pra frente. Não obstante todas as críticas vindas inclusive do exterior, de parte da imprensa estrangeira, sobre o impeachment de Dilma Roussef o fato é que parece que não havia outro caminho a seguir. É o que dizem alguns juristas, embora haja também quem discorde. O momento do Brasil não é de comemorar, mas de temer.

    Antes que alguém mais precipitado logo me tome por algum petista despeitado e derrotado, aviso que procuro fazer uma análise isenta o que não me obriga a concordar com a opinião deste ou daquele. Quero a verdade acima de tudo. Arrisco-me mesmo sabendo que infelizmente alguns estão levando nossa triste situação política e econômica para um plano deplorável de revanchismo seja de que lado for
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    D. Dilma Roussef não foi afastada por desonestidade, isso não, muitos parlamentares de oposição fizeram questão de dizer isto ao proferir seu voto pelo impeachment. Todavia temos que reconhecer que ela cometeu erros, muitos erros, na condução do seu governo que fora eleito por mais de 54 milhões de brasileiros em sua reeleição. Se esta seria a única solução para tentar por o país nos trilhos confesso que eu tenho dúvidas. Por que não ouvir nossa gente pelo voto? Por que não?

    Curiosamente alguém me lembra que o PMDB chega ao poder maior pela terceira vez consecutiva sem nunca ter sido realmente eleito. Ao sairmos da ditadura de 20 anos e com a súbita morte de Tancredo Neves o Sr. Sarney, que fora convidado por aquele para ser seu vice, logo assumiu o poder. Levou o país a uma híper-inflação. Depois foi eleito presidente o Sr. Fernando Collor e com a sua renúncia, face ao processo de impeachment que contra ele estava a ser montado, assumiu, também do PMDB, o Sr. Itamar Franco. Este pelo menos fez um bom governo, nos tirou de uma inflação galopante com o Plano Real idealizado por economistas do seu Ministério da Fazenda. Teve seus méritos e ainda acabou ajudando a eleger FHC.

    Após cerca de 22 anos, ou com dois mandatos tucanos de FHC, mais dois de Lula, e estando Dilma no segundo mandato, assume a Presidência o seu vice Michel Temer, também do PMDB. Não comemoro nada porque receio muito o tempo que virá pela frente, embora estejamos cheios de esperança saindo de uma crise que crescia a cada dia. Todavia não sei o que será pior. Evito ser pessimista, mas prefiro aguardar.

    Como disse o comentarista da TV Bandeirantes Ricardo Boechat que ouço sempre e respeito muito nós passamos agora a “ter um governo novo, mas com cara de velho”. Basta ver alguns dos seus Ministros recém-empossados para lhe dar razão. Raposas antigas da nossa política, (Moreira Franco e Cia.) com algumas exceções, claro, vão comandar com Temer a nossa nação.

    Assustei-me outro dia quando ouvi dizerem que Temer declarara que José Sarney era um de seus “conselheiros”! Pelo menos o filho deste assumiu cargo importante no novo-velho governo. Não perco a esperança, mas tenho resistência em acreditar que saberão levar nosso país a novos rumos e a nos tirar deste imenso buraco em que estamos enfiados.

    Por outro lado estranhei que o STF tendo todos os elementos para agir contra o então Presidente da Câmara, Eduardo Cunha, só o afastou do cargo após ele cumprir todo o rito do impeachment contra o desastrado governo de Dilma Roussef. Por que não agiram antes? Igualmente o Sr. Renan Calheiros, presidente do Senado, que conduziu com muita serenidade e competência o rito da continuação do impeachment de Dilma tem contra ele diversas denúncias. Eu li que o STF estaria pensando em agir agora o que igualmente já deveria ter feito. Por que somente agora, com todo o respeito?

    Mesmo lamentando que o governo de D. Dilma não tenha correspondido no segundo mandato ao que o povo dela esperava ao lhe conceder os 54 milhões de votos, olho para o nosso Brasil político, repito, com desconfiança e muito temor. Como pode o Senado, a Casa Maior do Congresso, abrigar atualmente entre seus cerca de 80 membros 60% de políticos que são atualmente alvo da Justiça por um ou mais problemas? E penso: como podem eles ser juízes de uma Presidente ou de qualquer outra pessoa? Desculpem, se alguém julga isto uma bobagem então me empurra ainda mais para o desencanto e a desesperança. Como acreditar na isenção de julgamento deste Poder?

    Leiam esta reportagem que retirei do Portal Terra sobre o assunto acima enfocado:
    http://noticias.terra.com.br/brasil/politica/impeachment/quase-60-dos-senadores-que-julgam-dilma-sao-alvo-da-justica,cfbab963c3c9ea620c15b2ebf225db37tut2c8qu.html
    E se formos pesquisar na Câmara, começando pelo seu ex-Presidente e pelo Vice que assumiu atualmente a Presidência, provavelmente encontraremos um percentual ainda maior e pelos mesmos motivos. Assusta-me ter uma democracia, da qual não abro mão, mas sustentada por uma classe política que fala facilmente em nome de Deus e da família, mas que convive com falcatruas tantas que enrubescem até o diabo.
    Por esta e por outras eu quero acreditar, porém tenho dificuldades visto que percebo que não é hora de comemorar, mas de temer, ou de aguardar.


    Francisco Simões. (15/Maio/2016)