Crônica
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    VIDA E MORTE TEREZINHA


    Como grande parte do povo brasileiro ela criou e educou com muitas dificuldades 6 meninas e 2 meninos. Hoje todos estão crescidos, constituíram suas famílias e traçaram os seus rumos nesta existência.

    Eu a conheci há algumas décadas quando passou a morar nesta mesma cidade em que eu vivo. Ela era capixaba como todos os seus filhos e filhas. Ela era menos de um ano mais vivida do que eu. Aprendi a respeitá-la e admirá-la desde que uma de suas filhas se tornou nossa amiga.

    Aos poucos fui conhecendo outros membros da família dela. Eu estava então no meu segundo casamento, era feliz e não imaginava o que o destino estava reservando para nós. Digo para mim e minha então esposa e também para uma das filhas de Terezinha.

    Esta viria anos depois a ser não só amiga como uma pessoa fundamental especialmente durante um ano e meio da doença que acometeu minha esposa com quem eu estava casado já há uns 38 anos. Não sei quem escreve a nossa sina nem porque temos que nascer para depois morrer.

    A verdade é que a morte acaba por ir controlando a vida neste lindo e pequeno planeta que chamamos de nosso mundo. Se considerarmos o universo em que estamos incluídos o planeta Terra é uma parcela tão pequena, tão ínfima desta realidade, mas é a nossa “casa”.

    D. Terezinha foi um dos seres muito dignos que soube desempenhar com lealdade, seriedade e dignidade o seu papel nesta vida. Depois que minha segunda esposa acabou falecendo pela doença muito séria que a vitimou eu achei que meu horizonte também ia desabar. Foi aí que uma das filhas de Terezinha que já fazia parte de nossa vida acabou por se tornar o esteio da continuação de minha existência.

    Com o tempo uni minha vida a dela. Percebi que era a melhor forma de manter-me vivo, útil, integrando a partir dali uma nova família, a de Terezinha, a mãe, avó, tia, e bisavó tão querida, tão amada por todos.

    Quando casei com uma de suas filhas, minha esposa até hoje, nós convidamos D. Terezinha para vir morar aqui conosco. Ela estava então vivendo em sua terra natal e de toda sua família ou Bom Jesus do Norte (ES).

    De tempos em tempos ela ia até lá visitar irmãs e outros parentes, matar saudades e depois retornava a nossa cidade. Há alguns anos o cardiologista que me assiste desde 2007 e que é médico dela também nos avisou de que Terezinha tinha uma cardiopatia grave. Nós sabíamos os riscos do seu estado de saúde, porém ela levava a vida normalmente.

    Ela chegou a nos dar alguns sustos, mas com o socorro imediato tudo terminava bem. Eu gostava de fazer minhas caminhadas no quintal aqui de nossa casa, o que continuo fazendo, e vê-la sentada numa cadeira tomando o seu “banho de sol”. Dávamo-nos bom dia e falávamos sobre nossa noite de sono anterior.

    Eu sempre a chamei de minha “terceira mãe”. Explico: Ana Rosa foi minha mãe biológica, me trouxe ao mundo, Carmita minha Dindinha que cuidou sempre com muito zelo de mim desde garoto e esteve presente em minha formatura como Oficial da Reserva no CPOR de Belém, minha terra natal.

    D. Terezinha me inspirava respeito e muito carinho, e assim além de minha sogra eu a tinha como sendo minha “terceira mãe”. Ela sabia disso e devotava-me também muito carinho, com certeza.

    Há coisa de uns dois meses ela voltou a Bom Jesus do Norte naquela rotina de matar saudades de irmãs e outros familiares que por lá vivem. Ocorre que nunca ela demorara tanto a voltar a Cabo Frio. Chegamos a estranhar o fato de ela estar hesitante entre ficar por lá mais tempo ou retornar. Como ela faria aniversário no dia 03/Setembro chegou a dizer que logo voltaria a nossa convivência. Estávamos com saudades dela.

    De repente há dias atrás veio a notícia de que Terezinha acordara mal, não estava nada bem e Marlene, minha esposa e uma de suas filhas, pediu a sua irmã de lá para que a internassem rápido na Clínica que já conheciam. Assim foi feito, mas o destino estava selado.

    Momentos depois voltaram a ligar já nos passando a infausta notícia. O choque foi muito grande e explodimos nossa tristeza em lágrimas de saudade, uma saudade que doe muito. Todos perderam algo e eu também, com certeza. A vida ficava mais vazia para nós. Foi preciso liberar o que nos machucava demais.
    Mais gente chegava e juntavam suas lágrimas a nossa, sua dor a nossa, sua saudade a nossa. Era difícil aceitar que de um momento para o outro não tínhamos mais a presença de D. Terezinha. Éramos todos órfãos na dor e na saudade.

    Quando nossa emoção se abrandou um pouco Marlene me falou: “Sabes que mamãe sempre dizia pedir a Deus que o dia em que ela tivesse que partir desta vida, pois que fosse na terra natal dela.” Foi quando paramos e pensamos que afinal ela foi atendida em seu desejo.

    Terezinha cumpriu e muito bem sua missão, soube o que era enfrentar dificuldades e muitas, jamais relaxou na criação de oito filhas/filhos, nos ajudou a entender a felicidade, nos deu sábios conselhos e exemplos, e enfim partiu desta vida sem sofrer. Viveremos para sempre com ela em nossa mente e nossos corações. Adeus Terezinha, Deus te guarde.

    Francisco Simões (31/Março/2016)