Crônica
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    A ÚLTIMA NOTÍCIA


    Esta poesia eu escrevi ainda em 1999. Naqueles dias me batia certo baixo astral e encarando a realidade começaram a me vir imagens que em versos eu passei a descrever. Vejam que foi em 1999, não agora.

    O cenário era mesmo do que se pode chamar de fim de mundo. O mesmo que hoje em dia em pleno ano de 2016, muitos vivem a pregar e a temer face a tantas ameaças. Refiro-me a armas que cada dia são mais sofisticadas, a agressões sem sentido de pessoas insanas que matam e se suicidam em nome de um deus em que eu não creio, enfim temos aí um cenário que nos aterroriza diariamente.

    Vejam nesses versos que na minha cabeça já se desenhava uma situação de fim de tudo mesmo:

    “Nem mais ouvidos havia
    Para escutar a notícia.
    A cidade ficara surda,
    A pátria estava surda,
    O mundo já nada mais ouvia.
    Nem ouvia o beija-flor,
    Nem a flor mais pediria
    Um beijo ao beija-flor”.

    Quantos mais versos eu lhes apresentar aqui, sentirão que a poesia “A Última Notícia” descreve com certo toque de realismo o que para alguns pode parecer pura ficção. Acreditem que do jeito que nosso mundo, nosso planeta caminha mais cedo ou mais tarde o próprio homem, que dizem ter sido criado à imagem de Deus, acabará empurrando a tudo e a todos para um final que ninguém ainda com saúde mental pode desejar. Antecipo mais alguns versos deste meu poema:

    “Na solidão do mundo sentei,
    No silêncio da vida chorei,
    Olhei para o alto e orei.
    Mas, ainda haveria Deus?
    O sinal estava verde, pra nada.
    O vermelho parara tudo,
    Crentes, dementes, ateus.
    Só uma barata atravessava a rua.
    O trânsito, parado e mudo.”

    Então eu os convido a ler esta poesia, repito, escrita em 1999, mas não me perguntem como consegui tantas imagens terrificantes em minha mente que acabei por descrevê-las em versos. Confesso que me vi sentado numa calçada, em frente a um sinal de trânsito, e tudo o mais que eu ia percebendo foi sendo descrito nos versos deste poema. Leiam, por favor, “A ÚLIMA NOTÍCIA”.

    Francisco Simões (Fevereiro/2016)

    A ÚLTIMA NOTÍCIA

    “Atenção, muita atenção
    Para a última notícia.”
    (e seria a última mesmo)
    A voz lúgubre noticia
    No espaço vazio, a esmo,
    A última notícia.
    Nem chegou a ser a última
    Porque não chegou ao fim.

    Nem mais ouvidos havia
    Para escutar a notícia.
    A cidade ficara surda,
    A pátria estava surda,
    O mundo já nada mais ouvia.
    Nem ouvia o beija-flor,
    Nem a flor mais pediria
    Um beijo ao beija-flor.

    Nem o amor venceria,
    Nem o amor ouviria,
    Fora vencido o amor.
    A aurora ainda viria
    Mas, não acordaria a vida
    Que também fora vencida.
    A lua ascenderia
    Descendo seu prateado
    Nos corpos dos namorados
    Que também já não amavam
    Mas, estavam abraçados.

    Na solidão do mundo sentei,
    No silêncio da vida chorei,
    Olhei para o alto e orei.
    Mas, ainda haveria Deus?
    O sinal estava verde, pra nada.
    O vermelho parara tudo,
    Crentes, dementes, ateus.
    Só uma barata atravessava a rua.
    O trânsito, parado e mudo.

    O mar fugira no horizonte.
    No horizonte havia um monte
    De ossos partidos,
    De ferros distorcidos,
    De verdade nua e crua,
    De justiça social.
    Enfim todos eram iguais,
    Estavam nivelados no nada.
    O nada então era tudo.

    Pacifistas, ecologistas,
    Políticos, poetas, o bem, o mal,
    Enfim todos eram iguais.
    Não se ouviam protestos mais.
    Apenas eu tinha ouvido
    Um derradeiro gemido
    Mas, não a última notícia.
    “Atenção, atenção...”
    E não havia mais plantão
    E nem havia notícia.

    Perplexa e intrigada
    A barata me encarava.
    Eu era um resto de nada,
    Ela, um saldo de tudo.
    Pensei: “A História, a Ciência, a Cultura,
    Tudo, tudo agora perdura
    Na poderosa barata.”
    E perplexa ela me olhava
    Enquanto eu expirava
    Junto com a paz fictícia.

    Foi aí que eu percebi
    Que para a barata eu era:
    “A última notícia.”

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    Autor: Francisco Simões
    Em novembro/1999.
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