Crônica
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    “UMA VIDA INTEIRA PELA FRENTE”


    Esta é uma expressão que costuma acompanhar nossa vida por anos, ou décadas, conforme tenhamos uma vida mais longa ou não. Ainda criança se nós choramos por algo que perdemos algo que deu errado etc aparece sempre alguém para nos dizer “calma menino, outras oportunidades virão, você ainda tem uma vida inteira pela frente.”

    Se novamente perdemos algo ou em algo e eventualmente nos aborrecemos e choramos, algum familiar nosso acaba por repetir a mesma expressão. Podem ter certeza disso. Procurem relembrar em vossa infância. Sempre acontece isto.

    Nós vamos crescendo e ora acertando ora errando em nossas iniciativas ou escolhas, o que faz parte da vida de todo mundo, e acabamos por manifestar de alguma forma nosso desagrado. Podem acreditar que logo alguém voltará a dizer “Calma menino, você tem uma vida inteira pela frente, outras oportunidades virão.”

    Sem percebermos o tempo vai passando rápido por nós e por todo mundo, claro. Saímos da infância e já navegamos, digamos assim, em nossa juventude. Nossas iniciativas ora dão certo ora dão errado, acontece na vida de todos nós.

    Na vida amorosa então nem se fala. Ao mesmo tempo em que encaramos nossos estudos em que nos vamos preparando para o chamado futuro vão surgindo oportunidades de namoricos os mais variados. Alguns são apenas aventuras passageiras e quando se vão embora não nos fazem falta nem nos deixam marcas.

    Pior é quando encaramos nossos relacionamentos com mais seriedade, quando já começamos a pensar até em casamento futuro. Por culpa nossa digamos que cometemos algum deslize mais sério, ou se a outra parte manifesta algum afastamento sentimental e tende a um rompimento, acabamos mergulhando num sofrimento tal que para alguns parece que sua vida termina ali. É a terrível depressão, muitas das vezes.

    Podem crer que ao desabafarmos com algum amigo ou alguma amiga ou mesmo algum familiar, vai surgir alguém que na tentativa de nos acalmar, de minimizar a nossa dor, acabará repetindo a mesma expressão: “Calma relaxa, antes agora do que depois, certo? Lembra que tens ainda uma vida inteira pela frente.” Neste momento já estamos talvez acima dos 18 ou 20 anos ou quem sabe acima dos 30 anos.

    O tempo voa, mas nós nem percebemos, achamos sempre que realmente temos muito ainda a viver sem sequer nos darmos conta de que já chegamos aos 40, ou quem sabe aos 50 ou mais. De repente a aposentadoria bate à nossa porta.

    A partir daí nossa vida muda e costuma mudar bastante. Temos que estar preparados, planejados para esta nova fase, pois do contrário ficamos meio perdidos, desnorteados, o que é comum vermos em algumas pessoas após a aposentadoria. Esta requer sim um planejamento prévio que nem todos fazem infelizmente. Eu posso dizer que planejei tudo direitinho.

    Felizmente não tive que ouvir, pelo menos nos primeiros anos de aposentadoria, alguém a dizer: “calma amigo se já não tens uma vida inteira pela frente deves aproveitar bem o que te resta.” O que não podemos programar nem esperar, embora seja uma certeza a qualquer tempo, é a presença da morte. Esta pode inclusive destruir planos bem articulados antes e bem executados numa reta final de nosso viver.

    Se ela nos leva alguém com quem vivemos grande parte de nosso tempo num casamento considerado feliz justo quando melhor podemos aproveitar é difícil, confesso que é muito difícil encararmos sozinho a realidade que nos resta. A estrada à nossa frente surge vazia e em princípio sequer sabemos como caminhar nela.

    Amigos buscarão nos consolar, mas jamais usarão a expressão acima visto que realmente já não temos mais “uma vida inteira pela frente”, quando muito um caminho que vai se estreitando a cada dia a cada tempo que vamos vivendo. Feliz de quem de alguma forma pode contar com pessoas amigas que o apoiam nesta caminhada. Aconteceu comigo.
    Quando eu parecia caminhar para o abismo final ressurgiu dos tempos anteriores aquele apoio decisivo, muito importante, aquele ombro amigo, aquela palavra que traria junto com ela muitas outras a me apoiar e a me orientar. Ressurgiu a esperança que parecia ter morrido antes de mim.

    Já lá se vão hoje quase quatorze anos que eu escrevi “O SENTIDO DA VIDA” (vejam no meu arquivo no CooJornal desta revista RIO TOTAL) quando percebo que se o caminho agora está mais curto ainda há o que caminhar tendo alguém ao meu lado.

    Eu tenho a oportunidade eventual de dizer a alguns que andam meio desanimados a célebre frase que tanto eu ouvi: “Calma, ainda tens uma vida inteira pela frente.”

    Francisco Simões. (Janeiro/2016)