Crônica
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    É NATAL NOVAMENTE


    Gente amiga, a cada Natal de há muito deixei de ter os mesmos sentimentos que as pessoas em geral têm. Perdoem-me, mas não dá, mesmo sendo cristão, para comemorar sabendo de tudo que se passa a minha volta, para além da porta da nossa casa. Não dá mesmo.

    Não condeno nem recrimino os que festejam o Natal baseado no nascimento de Jesus, embora haja fontes que garantem ter Jesus nascido perto da época em que comemoramos a Páscoa e que depois por interesses outros, talvez comerciais, hajam levado o Natal para o mês de Dezembro. Não há dúvida que foi muito conveniente.

    Da minha parte nada digo a favor ou contra as duas versões como nada tenho contra as comemorações natalinas. A realidade em que estamos inseridos é que me incomoda e me faz muito triste por vivermos atualmente num mundo falso, hipócrita, cheio de versões mentirosas de políticos, mesmo os mais poderosos quando se defrontam com as cenas de terror que atualmente andam a ocorrer mundo afora.

    Peço-lhes vênia, entretanto para colocar aqui três trechos que já divulguei em outro Natal em outro texto em que falava sobre o mesmo tema. Aqui vão os trechos:

    “Repetirei aqui o primeiro artigo de “O Estatuto dos Direitos do Homem”, escrito pelo poeta brasileiro Thiago de Mello, em abril de 1964: “Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida, e de mãos dadas, trabalharemos todos pela vida verdadeira." Anseio e sonho de um grande homem, de um grande poeta, de alguém humanista. Realizado? Não. Por isso eu escrevi, em janeiro / 2002, “O Distrato dos Direitos do Homem”. Enfoquei a realidade que vivíamos e que por ora se deteriorou ainda mais.”

    “O artigo 4º dos "Estatutos" de Thiago de Mello diz: "Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu." É o poeta demonstrando fé no amanhã, nos valores eternos do homem e na sua indiscutível vocação para a paz.”

    “No meu “Distrato dos Direitos do Homem”, à vista da realidade que nos impõem, abandonei a verdade e escrevi: "Fica decretado que agora vale a mentira. Agora vale a morte, e de mãos bem armadas, bombardearemos todos, explodiremos tudo pela paz verdadeira e duradoura e pela vida eterna, recompensada." – Ao escrever eu pensava em Bush, Bin Laden e Cia.”

    Vejam amigos e amigas, que eu escrevi os parágrafos acima, especialmente o terceiro, há mais de 10 anos. Hoje o enfoque que eu daria às palavras com certeza seria ainda mais forte. O mundo caminha meio célere para um clima de novo confronto enquanto lideranças políticas parecem não se dar conta disso.

    No caso eu me refiro ao mundo global, mas perto de nós há também muito a consertar, e como há. Não pretendo escrever um texto com análise política, mas sim levando até vocês, mais uma vez, o poema que escrevi um dia e que há quase todo Natal faço questão de divulgá-lo.

    Assim sendo levo até vocês mais uma vez meu poema “É Natal” escrito em 1998 e que mereceu, quando eu me inscrevia em concursos de poesias, alguns prêmios bem significantes. Apesar do que eu disse acima desejo a todos, na medida do possível, um Feliz Natal. Até o próximo ano. a) Francisco Simões (Dezembro/2015)

     

    É NATAL

    É Natal,
    Mas talvez nem todos saibam,
    Talvez porque não caibam
    No Natal.

    Seu nome é José,
    Ele não tem Maria
    Já teve um dia
    Hoje é só o Zé.
    O Zé lá da praça
    Que fala sozinho
    Ou fala com os anjos,
    Que fala baixinho
    E sorri pra menina
    Um anjo que passa
    Que não fala com o Zé.
    Ninguém sabe quem é,
    As flores, o vento,
    Os grãos de areia
    Entendem José.
    Os pássaros também.
    A praça limita seus passos
    Mas não seus pensamentos.
    Sua mente alceia, alceia,
    E passeia muito além.
    Ninguém conhece o José,
    José não conhece Belém.
    A árvore de Natal na praça
    Para José não passa
    De uma alegria iluminada
    Que pisca e pisca pra ele,
    Que pisca e pisca, mais nada.

    Seu nome é Maria
    Da porta da igreja,
    Está ali todo dia,
    Talvez só Deus a veja.
    A igreja é de Deus.
    Ela ouviu a história
    Dos bondosos Reis Magos.
    Eles passam pra lá,
    Eles passam pra cá,
    Sem mirra, incenso ou ouro.
    Para ela são Reis Magos
    Que não lhe dão afagos,
    Que não lhe dão presentes.
    Nada ouvem por mais que peça
    Pois, toda aquela gente
    Leva nos pés muita pressa.
    Sem pressa tocam os sinos
    O seu anúncio etéreo:
    “Nasceu o Deus-Menino”.

    Plantam-se ceias nas mesas,
    Ouvem-se coros, orquestras,
    Mas Maria não tem mesa,
    Maria nem tem janela
    Só tem a porta da igreja
    E uma natalina certeza
    De que a noite que agora boceja
    Vai dormir sem lhe trazer festa.

    Seu nome é Jesus,
    Jesus, menino, 10 anos.
    Ele não tem segredos
    Apenas certezas miúdas
    E muitas mágoas graúdas
    Que esmagam a criança
    E constroem sua cruz.
    A boca gelada de silêncio,
    Silêncio que grita mais alto
    Que a voz das passeatas,
    Que esconde o seu medo.
    Escolaridade: mendicância.
    Ele povoa a cidade
    Entre tantos Jesus,
    Entre tantos contrários,
    Sem mangedoura, sem berçário,
    Carregando sua fragilidade
    Sem cobrar o que a vida
    Há muito lhe deve: a infância.
    Jesus, 10 anos, menino,
    Por ele passam os sonhos
    De tantos que levam planos
    Na cabeça, nos passos,
    No olhar, no sobressalto.
    Nas mãos de Jesus uma lata
    Onde cabe o seu espaço,
    Onde fecha o seu destino.

    É Natal
    Mas eles não sabem,
    Talvez porque não cabem
    No nosso Feliz Natal.
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    Autor: FRANCISCO SIMÕES
    Em : Dezembro / 1998
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    (Esta poesia ganhou o prêmio de Melhor Crítica Social na 4ª e na 6ª edições do Concurso “Expressão da Alma”, no Rio de Janeiro, além de diversos outros prêmios importantes em vários concursos literários)