Crônica
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    UMA CIRURGIA, ALGUNS CONSELHOS


    Há algum tempo atrás eu me descuidei ao colocar uma joelheira nova, bem apertada, para fazer abdominais e aí... bem aí acabei arranhando feio um grande sinal dos muitos que tenho espalhados pelo meu corpo, herança de meu avô materno. Note-se que ele morreu aos 87 anos, mas não pelos sinais.

    No local ficou uma ferida que tratei com uma dermatologista por meses. Quando parecia que tudo ia bem novamente sem querer e descuidadamente, bati com a mesma perna direita na quina de uma mesa e em cima da ferida por duas vezes. O que estava cicatrizando voltou a sangrar. Continuei o tratamento, todavia por razões que agora não vem ao caso comentar, tratei a ferida sem lhe dar maior importância. Meu primeiro grande erro. Nunca façam isso, amigos e amigas, nunca.

    Com o passar do tempo reparei que naquele local começava a se formar algo estranho que crescia para fora. Não doía não me incomodava e novamente errei ao esconder aquilo das pessoas, inclusive de minha esposa. Um dia ela percebeu. Ainda assim minimizei o fato e afirmei que tudo ia bem, mas não era verdade. Meu medo quando se trata de assuntos médicos me levou a uma atitude irresponsável. Até meu médico de homeopatia há quase 40 anos, Dr. Carlos de Faria me advertiu, sugeriu que procurasse um cirurgião.

    Outros amigos que trabalham em Farmácias locais diziam o mesmo, mas eu insistia em ser teimoso e irresponsável. Somente muito tempo depois, após eu ter feito a cirurgia de catarata no olho direito, no Rio, com o excelente Dr. Rogério Horta, fui novamente pressionado por minha esposa e enfim acabei acordando para a realidade. Fui a outra dermatologista que logo sugeriu a visita a um cirurgião e afirmou que deveria tratar-se de um carcionoma. Este pode ser do bem ou do mal.

    Procurei então o melhor de todos os cirurgiões da região, o Dr. Acácio Vasconcelos. Veredito dele após exame local: “vamos ter que retirar isto daí e depois mandar para uma biópsia. Não se deve esperar mais Sr. Simões.” Ele, muito tranquilo e simpático, desenhou numa folha de papel como cortaria na referida cirurgia, ou melhor, cirurgias e logo marcou o dia. Concordei de imediato.

    Lembro-me de estar na sala de espera quando a jovem instrumentadora Juliana me chamou. Levantei e falei para Lena: “Vai dar tudo certo, podes crer.” Eu nunca passara por tal situação, entrar sozinho para uma cirurgia até hoje não sei onde fui buscar tanta coragem para entrar confiante, de cabeça erguida, sorrindo, clima que mantive durante todo o tempo da cirurgia.

    Ele teve que me anestesiar em duas partes da perna, mais em cima para retirar material a fim de ao final enxertar a parte de baixo, pois ali não há pele suficiente para fechar e mais em baixo para retirar o tal carcionoma que já tinha cerca de 2 centímetros de diâmetro. Senti apenas as duas primeiras espetadas da agulha em cima e uma embaixo. Daí pra frente até o médico se surpreendeu com a minha tranquilidade. Passei a contar histórias da minha vida, relatei situações que vivi até hoje, e quando perguntei ao Dr. Acácio se o atrapalhava fiquei surpreso com a resposta do médico.

    Disse-me ele algo assim: “De jeito nenhum meu amigo, quisera eu ter outros homens deitando aí, passando pelo que você está passando e agindo assim. Detesto que ficam a querer saber o que estou fazendo, quanto tempo ainda demora, e outros detalhes da cirurgia sempre com voz assustada.” Mais tarde acrescentou que ele adora ouvir histórias, especialmente reais, histórias de vida algumas com muita emoção.

    Rimos os três, eu, o médico e a simpática instrumentadora. Falei para eles que se alguém estivesse a ouvir atrás da porta jamais imaginaria o que se passava ali, com certeza. Não me perguntem onde fui buscar tanta força emocional, ou espiritual, sei lá, para me comportar como se nada estivesse a me acontecer de mais ali. Até hoje eu fico surpreso quando me recordo daquele dia, pois sempre fui medroso e covarde nessas situações.

    Saibam que na parte de baixo da minha perna direita ele “cavou” bastante para retirar um material o mais completo possível para a biópsia. Isto foi no dia 05/Outubro deste ano e até hoje Lena troca o curativo diariamente após meu banho. Os primeiros 7 dias foram chatos, pois eu nem podia sair do quarto, ou da cama. Ali fazia minhas refeições e o “banho” era de chuveirinho, sentado no vaso sanitário, lavando o mínimo possível evitando molhar o curativo fechado pelo médico.

    Levantar da cama para ir ao banheiro só com ajuda de alguém já que não devia usar a perna direita como apoio e não me dei bem com uma bela muleta que compráramos. Pelo menos o resultado da biópsia foi animador, eu me livrara de algo que se encaminhava para um câncer, disse-me o médico. Estou mais animado, porém ainda proibido de sair de casa e de forçar muito a perna direita, já lá vão quase dois meses da cirurgia. A cicatrização vai ocorrendo normalmente.

    Antes tive um comportamento medroso, covarde, o que não recomendo a ninguém. Talvez tivesse resolvido tudo muito antes e com menos sacrifício. A cada semana ou duas vou ao médico para ele conferir a cicatrização. Não vejo a hora do Dr. Acácio me liberar para as caminhadas, ter a liberdade que por ora não posso usar. “Mea culpa”.

    Agradeço também a atenção das Assistentes Tatiana e Paloma que ajudam no atendimento das revisões. Eu precisava fazer este desabafo e espero que me entendam.


    Francisco Simões (01/Dezembro/2015)