Crônica
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    QUE FUTURO, QUE PAÍS?


    Eu nasci em seio familiar dos melhores. Mal sabia que seria o primogênito de mais nove irmãos que viriam depois. No total chegamos a ser 10 (dez), cinco homens e cinco mulheres. Hoje somos apenas cinco no total.

    Tive uma infância e uma juventude maravilhosas. Fui aluno bem aplicado nos estudos, igualmente no CPOR quando servi ao Exército me formando Oficial da Reserva. Posso dizer que não decepcionei os meus pais, apenas meu avô que esperava um herdeiro da indústria de bebidas, mas eu mergulhei fundo nas letras, que era uma das áreas preferidas do meu pai também amante de música clássica.

    Comecei a trabalhar cedo por iniciativa minha mesmo isto aos 17 anos. Sonhava com meu futuro por ouvir constantemente tanto do meu avô como do meu pai que o Brasil era o país do amanhã. Isto era um chavão muito repetido pelos da antiga de então. Eu sonhava em ter um lugar no país que se desenvolveria muitos anos depois.

    Após trabalhar alguns anos no rádio paraense acabei entrando para o Banco do Brasil por concurso externo. Neste exerci diversos cargos e funções de que me orgulho muito nos 30 anos em que lá permaneci. No conjunto de minha vida não nadei em mar de rosas, tive alternâncias como ser feliz, enfrentar sofrimentos e decepções bem amargas, comemorar vitórias e lamentar derrotas, rir e chorar como quase todo mundo.
    Sempre esperei que algum dia o tal país do futuro fosse ser construído dando oportunidade a todos. Passei por 20 anos de ditadura civil militar cujas garras senti bem de perto através da censura da época. Já contei isto em algumas crônicas.

    Quando vejo hoje pessoas pedindo intervenção militar como solução política eu imagino que não têm a menor idéia do que seja um regime de exceção. Julgam que poderão falar criticar abertamente como o fazem agora? Pobres infelizes mal informados ou mal intencionados. Acham que corrupção só ocorre em governos civis? Informem-se pela História recente deste país e de outros que insistem em manter regimes ditatoriais. Leiam.

    Terminado o período da ditadura, retornamos com festa ao que deveria ser uma Democracia, sim, Democracia com direitos iguais para todos. Quanta decepção, pois a política, com o passar do tempo, vem nos impondo situações que envergonham a quem esperava desenvolvimento com oportunidades e governos atuando com seriedade, honestidade e patriotismo. Quanta ilusão.

    Mal governo em democracia se troca pelo voto jamais com golpes que geralmente embutem interesses escusos pelo poder, nunca pelo bem do povo. Este costuma ser massa de manobra sempre.

    O fato é que o menino nascido em 17/Agosto/1936 e que cresceu cheio de idéias e de esperanças viu o tempo passar na vida de seus pais e de seus avós. O futuro deles já estava selado visto que alcançaram os 85 anos. O meu ainda estava muito distante. Assim chegou o dia em que o destino cobrou de meu pai e de meu avô a fatura. Eles haviam chegado ao horizonte da vida onde tudo termina.

    Enquanto isso eu vi também a vida passar por mim ao mesmo tempo em que eu construía minha felicidade, suportava eventuais erros e enganos cometidos, sofri muito com a má sorte, porém sempre acreditei no amanhã desenvolvimentista que, no meu passado já distante, me haviam prometido.

    Hoje às vésperas dos 79 anos de idade encontro-me no meu futuro há algum tempo. Olho para todos os lados e não consigo ver aquilo com que eu sonhei aquilo que me haviam garantido na infância e na juventude. O tal pais do futuro no fundo não tem passado de balela. Sei que alguns irão discordar de mim, mas tudo bem.

    Sem querer passar a imagem de alguém deprimido, desencantado com a vida, eu que sempre fui alegre, conversador, amigo dos meus amigos, não posso negar que já percebo meu horizonte cada dia mais perto. Isto de certa forma me assusta e me arremete ao que disse o saudoso escritor Rubem Alves, sem medo de ser feliz, numa entrevista na rádio CBN que repassei a todos da minha lista na época:

    “Eu gostaria de ter um pequeno botão no pescoço que me permitisse sumir desta vida quando o desejasse. Acreditem que já houve momentos em que eu o usaria. E creiam que conheço diversas pessoas, gente da melhor qualidade, que fariam o mesmo. Não é alucinação.”

    Afinal eu continuo sem a chance de conhecer ou me sentir no tal “país do futuro”. Será que o construirão mesmo algum dia? Como a dúvida é que me responde sempre encerro com outra pergunta: Que futuro, que país?


    Francisco Simões. (15/Junho/2015)