Crônica
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    VOU PARAR DE DIRIGIR


    A esta altura da minha vida devo seguir o conselho que meu amigo Otávio, do Leblon, já me dera há algum tempo. Disse ele: ”Amigo Simões, faz como eu; para de dirigir e se podes e gostas passa a usar táxis de pessoas conhecidas em quem confias.”

    Sábio conselho, meu amigo, tens toda razão. No município do Rio de Janeiro, quando lá estou, eu já não dirijo há décadas, e na estrada também. Quando eu e Lena vamos ao Rio quem nos leva é o filho dela e é ele que nos traz de volta algum tempo depois.

    Eu ainda insisto em sentir prazer dirigindo onde moramos, aqui em Cabo Frio. Esta cidade já foi um paraíso, o trânsito era tranqüilo, não faltavam estacionamentos. Hoje tudo mudou e para pior. Pelo menos ainda sinto prazer em morar aqui apesar dos pesares. A cidade cresceu demais e com este “progresso” vieram mazelas que eu já conhecia na cidade grande, como o Rio.

    O avanço de sinais vermelhos tem virado rotina pondo em risco a vida de pedestres e mesmo de carros que atravessam no outro sentido. Este absurdo desrespeito às leis de trânsito ocorre tanto com automóveis como com motos e principalmente bicicletas. Estes julgam que não há leis que devam respeitar, mas estão completamente enganados os ciclistas. Consultem a regulamentação de trânsito no site do DETRAN.

    O fato é que se não temos autoridades atentas para punir motoristas irresponsáveis, o que é uma grande verdade, por outro lado muito menos estas se preocupam com os ciclistas. Deviam conhecer a disciplina que é imposta e obedecida por ciclistas na Europa. Aqui é uma zorra infernal e quem sofre é o motorista disciplinado que se vê constantemente ameaçado com eles andando na contra mão das ruas, avançando sinais em todos os sentidos, etc.

    Por outro lado os tais “exames de vista” a que nos submete o DETRAN para renovar nossas carteiras de motorista não têm critérios justos e cada examinador aplica o que lhe dá na cabeça. Estou chegando aos 79 anos e percebo, já há vários exames por mim feitos, certo anseio de alguns examinadores (homens ou mulheres) por querer reprovar candidatos especialmente com mais idade.

    Eu já passei por certas situações quando fui renovar minha habilitação que se eu contar em detalhes vocês vão pensar que estou inventando. Claro que me refiro à cidade de Cabo Frio onde moro há muitos anos, mas sei de casos ocorridos no Rio com amigos da antiga que são mesmo de arrepiar.

    Há quem afirme que os examinadores não precisam ser obrigatoriamente oftalmologistas e assim podemos nos “defrontar” com ginecologistas, médicos de clínica geral, otorrinos, dermatologistas e outros, sendo que cada um tem o seu critério pessoal. Julgo que o Detran não lhes dá um padrão de exame a seguir. Um absurdo.

    Digo isto porque já peguei examinadores tranquilos que não nos expõem a situações de vexame como outros tantos o fazem. Muitos costumam agora, mais que antes, exigir que enxerguemos letras bem minúsculas, porém não se preocupam com a cabeça, com o lado emocional de cada motorista. Assim vão aprovando pessoas que cometem os maiores desmandos no trânsito, mas leram as letrinhas e foram aprovados pelos ilustres examinadores. Não pretendo mais passar por isto.

    O amigo Otávio está com razão e invoco aqui como argumento a meu favor também o que dizia o grande e saudoso escritor Rubem Alves. Em diversas entrevistas ele sempre afirmou que após certa idade devemos fazer com que respeitem os nossos direitos, incluídas aí as nossas limitações.

    Ser mais vivido significa muito mais do que certas pessoas mais jovens pensam. Cabelo branco não representa vergonha, é uma causa normal da natureza e em muitos de nós pode significar experiência, conhecimento e, como motorista, mais respeito às leis de trânsito ao dirigirmos. Claro que há exceções, porém as estatísticas de acidentes provam o que eu afirmo acima.

    Resumindo, por essas e por outras não pretendo mais ter que ouvir inclusive motoristas mal educados que nos agridem com suas buzinas até querendo que avancemos sinais vermelhos quando não nos xingam com palavrões, algumas vezes alcoolizados.

    Todavia vai ver que estes leram as tais letrinhas miúdas e para os examinadores do DETRAN isto é suficiente. Santa ignorância, quanta falta de critério. Para mim chega, mas chega mesmo.


    Francisco Simões (15/05/2015)