Crônica
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    A FOTO E O TEMPO


    De repente abro o e-mail de um grande amigo da antiga e em anexo veio uma foto. Não uma foto comum, não uma foto sem expressão, sem emoção, sem história. Aquela foto fala do presente, nos lembra do passado, pelas ausências, e nos faz projetar o futuro cruel que irá retirar outros daquela imagem. É a vida.

    Aquela foto também carrega muitas histórias, amizades, convivências amistosas sempre leais que a partir nem sei de quando afastaram alguns amigos, contatos sem resposta, cortaram laços que pareciam eternos ou quase, mas que também mostra amigos que continuam fiéis até hoje.

    Há décadas ficou combinado entre muitos de nós nos reunirmos num almoço todas as quintas-feiras e assim foi sendo feito. No começo quase usávamos o espaço de metade de um restaurante, no centro do Rio, para nos confraternizarmos naquele almoço. Chegamos a ser mais de trinta, com certeza.

    Éramos todos de um grupo que trabalhava então no Treinamento de Pessoal do Banco do Brasil. Era algo meio sagrado, dificilmente alguém faltava àqueles almoços das quintas. Creio que tudo começou no final dos anos 60 ou começo de 70.

    Claro que nem sempre todos compareciam, todavia o importante era não se deixar acabar aquela confraternização semanal. Ao final de cada ano a presença costumava ser sempre maior. Vinham colegas até de outros Estados que trabalhavam com o treinamento de Pessoal, mas não atuavam permanentemente no Rio, em nossa sede.
    Ainda que houvesse eventuais divergências no relacionamento, e isto é perfeitamente normal num grupo tão grande, ao entrarmos no restaurante conosco somente entravam a amizade, a confraternização, a alegria, sempre foi assim.

    O grupo costumava usar o mesmo local embora com o tempo este tivesse mudado. Isto aconteceu algumas poucas vezes. As conversas eram animadas, não faltavam piadas envolvendo os próprios colegas, referências que jamais ofendiam alguém apenas nos divertiam a valer.

    Algumas histórias de viagens quando cada qual teria coordenado um curso fora da Sede, ou ministrado aulas também em outras cidades, costumavam vir à tona no bate-papo geral. E como havia histórias algumas vezes gerando gozações sadias.

    Para se fazer uma foto do grupo era preciso normalmente várias câmeras ou clicar fotos de ângulos diferentes, podem ter certeza disso. Mas o tempo é implacável, ele não nos perdoa e nem esquece de cumprir, digamos assim, “sua missão”.

    Ah, o tempo, ninguém o pode vencer nem o retirar de nosso caminho. Ele é mesmo implacável, nos traz alegrias mas também de quando em vez nos lança num turbilhão de dores e sofrimentos seguindo o script de vida de cada um de nós. Quem o traçou, o escreveu? Não sei. Talvez Deus, ou o destino, só sei que a vida é para ser vivida, mas também sofrida.

    Hoje quando vejo a foto que me enviou o grande amigo de todos o professor Amaro e conto quantos companheiros, todos aposentados, estavam presentes no almoço deste Dezembro/2014, mesmo considerando ausentes como eu que há muito tempo deixei de participar dos almoços, pois passei a viver em Cabo Frio e a viajar algumas vezes, aplaudo os que ainda comparecem àquele evento. Eles eram apenas oito na tal foto que gerou este texto.

    Oito heróis que mantêm acesa esta chama resistindo a que se apague. Já há algum tempo estamos todos aposentados. Cada um tomou rumo diferente, nem todos hoje moram no Rio, mas há sempre quem venha de longe para afirmar como se fôssemos “casados” com um destino que escolhemos e dele não nos afastaremos jamais.

    Este ano tivemos outra grande baixa poucos meses antes do tal almoço da foto. Refiro-me ao grande amigo Renato Toledo de Campos. Quanta saudade do verdadeiro amigo que nunca faltou “nas horas mais incertas”, eu que o diga. Renato esteve presente nos piores momentos que vivi em um ano e meio.

    Foi ele sempre o conselheiro, o anjo bom que pelas madrugadas da vida trocava e-mails comigo, ambos sem sono, pois nossas dores logo depois passaram a ser maiores que a vontade de descansar.

    Hoje eu vi oito companheiros oito amigos naquela foto que guardei e a coloquei na área de serviço do meu monitor também. Sei que há outros que não compareceram além de mim, porém cada um tem os seus motivos pessoais ou familiares para estarem ausentes. Todavia vê-los alegres, a sorrir, me trouxe doces recordações de um passado que ficou no tempo.

    Obrigado Amaro por este presente e aos que já me escreveram trazendo-me uma palavra de amizade, conforto e fé, meu eterno agradecimento. Espero que eles leiam este meu texto e perdoem este amigo que aos 78 anos continua um inveterado emotivo, sentimental e amigo seja qual for a distância que nos separe.
    Deixo de divulgar para meus amigos e amigas leitores a referida foto pois não pedi autorização para divulgar a imagem dos que nela estão.

    Francisco Simões. (25/Dezembro/2014)