Crônica
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    SAUDADE É O AMOR QUE FICA


    Outro dia eu ouvi alguém dizer numa entrevista exatamente as palavras que uso agora no título desta crônica. Ao ouvi-las achei que poderia desenvolver um raciocínio real, verdadeiro, abrangente na vida de muita gente, inclusive na minha.

    Quem durante sua juventude, e alguns mais precoces até em sua infância, não conheceram um sentimento que, mesmo eles não o traduzindo em todo o seu esplendor, ele se aproximava daquilo que conhecemos como amor?

    Enquanto dura ele gera a paz, nos faz às vezes julgarmos que a vida é mesmo um jardim florido, um mar de rosas, uma felicidade que pulsa mais forte quando estamos perto do outro ser que passa a ser parte de nós. Sem ele, ou sem ela, tudo vira saudade, só fica em nosso coração o sentimento maior do amor.

    Quem em todo o seu viver não flutuou nas asas de uma paixão em que se transformara o sentimento de um amor que não parava de pulsar estando nós acordados ou sonhando? Nós sentíamos aquela felicidade talvez ainda imatura, porém real, viva, intensa a fazer parte de nosso viver no dia a dia.

    Ainda me lembro que mesmo sendo jovem ao perder por algum motivo aquele bem maior que eu julgava me acompanharia pela longa estrada que talvez fosse o meu destino sentia doer muito no peito no coração o que eu nem entendia bem fosse um grande amor a florescer e que fenecia em mim deixando a impressão de saudade.

    Deixemos de lado os muitos namoricos, aqueles que começavam apenas num rápido olhar, num galanteio, que duraram algumas vezes apenas um carnaval, porém que jamais evoluíram para algum relacionamento mais sério, esses certamente jamais poderiam vir a produzir alguma saudade.

    Entretanto, nas minhas reminiscências da juventude recordo de três “professoras” que tiveram papel de destaque, posso dizer assim, na evolução do meu conhecimento ou aprendizado no que avança para além da amizade, do amor. Refiro-me ao prazer, ao desejo, aos primeiros passos no sentido do sexo sem extravagâncias e sem culpa. Quantos de vocês que me lêem agora não vasculharão na memória e encontrarão exemplos se não iguais, porém semelhantes?

    Nunca as esquecerei. Em dois dos três casos a que me refiro nunca chegou a se plantar um amor, todavia o carinho, o zelo, a dedicação de ambas as pessoas a que aludo acima como “professoras” sempre deixou em mim a impressão de que para elas pelo menos sempre houve mais do que simples momentos de prazer.

    Em um desses dois relacionamentos foi o ciúme de terceiros, a intriga, que atuou de forma a cortar o vínculo daquela boa amizade. Ela acreditou no complô armado por uma amiga dela e assim perdi suas maravilhosas “aulas” quando eu me encontrava no começo da adolescência.

    A outra “professora”, também mais avançada na idade do que eu, em diversas oportunidades e discretamente me fez conhecer o êxtase até simplesmente fingindo me dar uma simples aula de dança. Eu ansiava sempre pela próxima “aula”.

    Lembro-me de ter ficado envergonhado nas primeiras experiências por ela provocadas em mim face ao “rastro” do plasma seminal em minha vestimenta. Passado o “susto” no fundo eu esperava sempre mais. Uma súbita mudança de cidade de sua família a levou para longe de mim deixando apenas saudade. Não havia amor, porém um desejo sempre ardente quando nos aproximávamos um do outro. Só em pegar em minhas mãos ela me levava às nuvens.

    Minha terceira “professora”, no auge da juventude que eu vivia, tinha poucos anos mais do que eu. Morena, bonita, corpo escultural, voz morna e sensual me encantou desde que a conheci. Convivemos bastante no porão da casa de minha família. Ela era uma das três empregadas domésticas que lá atuavam, porém mais parecia uma princesa.

    Nossos encontros sempre às escondidas, já que eram proibidos, claro, ocorriam geralmente à noite quando eu voltava de alguma aventura externa noturna. Ela combinava antes comigo e quando eu chegava a casa sabia que a encontraria à espera embaixo do grande pátio da frente no começo do porão. Na parte de cima a família já estava a dormir.

    Quantas “aulas” eu tive com ela a ponto de algum tempo depois já começar a me sentir com bastante experiência, digamos, em “grau de professorado”. Havia entre nós muito respeito, todavia também uma amizade forte o suficiente para nos sentirmos como namorados que não ligavam para o tal desnível social. Jamais esquecerei aqueles lindos momentos presenciados apenas pelas trevas noturnas.

    Certo dia nós descobrimos, e da pior forma possível, que uma das outras domésticas alimentava uma espécie de inveja ao descobrir o ”romance” que se desenrolava a mercê do conhecimento geral da casa. Ela passou a nos seguir, nos observar às escondidas sem que nós o percebêssemos. Tanto tramou que certa vez nos deu um flagra. Sua atitude seguinte foi nos denunciar aos donos da casa.

    Bastaram apenas mais 24 horas para que a sensual morena fosse demitida. Lembro-me dela chorando muito e mesmo eu tentando por a culpa apenas em mim prevaleceu a decisão da autoridade materna. Apesar da minha jovem idade eu já alimentava pela amiga sempre fiel um sentimento até então por mim ignorado. Seria algo do tipo que uniu Romeu e Julieta?

    Posso afirmar-lhes que fosse o que fosse deixou em mim por um longo tempo, quem sabe até hoje, uma saudade como poucas vezes senti nesta vida. Sim porque depois já adulto tendo enfrentado alegrias e dissabores, amores e desenganos, o destino acabou por me impor uma tortura cruel que eu não desejo a ninguém.

    Foi quando tive a certeza de que realmente a saudade é o amor que fica.


    Francisco Simões. 
    (01/Novembro/2014)