Crônica
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    POR QUE VELHO?


    Estamos iniciando o mês de Dezembro e certamente muitos já estão chamando 2014 de “ano velho”? Claro, daqui a algumas semanas eles estarão assistindo aos fogos de fim de ano e dando boas vindas ao que chamarão de “ano novo”. É sempre assim e nunca será diferente.

    Acreditem que na palavra “velho” tem muito de preconceito e quem sabe até certo tom de desprezo. Vejam que nós, seres humanos, temos vivido mais de oitenta, ou de noventa e alguns mesmo mais de cem anos e isto não agrada a outros. Embora sejamos mais vividos fazem questão de nos rotular de “velhos”.

    No que se refere a mim, hoje com 78 anos, de há muito faço questão de falar a minha idade. O motivo é óbvio, pois costumam dizer sempre que eu não aparento ter tantos anos, ou outros afirmam que não pareço ser tão “velho”.

    Claro que gosto de ouvir tanto uma quanto outra expressão, mas percebo na segunda aquele prazer que alguém sente em elogiar, todavia não abrindo mão de me chamar de “velho”. Haja preconceito mal disfarçado como se eles não acabarão também com os mesmos cabelos grisalhos, “telhado branco” e velhos. Se lá chegarem poderão provar do mesmo “veneno”. Minha segunda esposa por ter dois anos a mais que eu não suportava este meu chiste ao revelar minha idade. Ela se queixava que logo iriam calcular que idade ela teria e isto era algo que a aborrecia por demais. Muitas mulheres não gostam de revelar os anos já vividos. Julgo uma tremenda bobagem.

    Como muita gente eu fui criado aprendendo a respeitar os mais velhos, entretanto jamais os chamando assim. Deveríamos usar as palavras senhor ou senhora. Aliás, muito do que aprendi na minha criação hoje está, digamos, “em desuso”. Raramente alguém toma a bênção do pai, da mãe, do avô ou da avó. Mais raramente ainda “têm chance” sequer de cumprimenta-los.

    Os tempos mudaram muito os costumes e confesso, não querendo ser apenas saudosista, que não me agrada ver como muitos jovens se comportam em família hoje em dia. Basta vê-los à mesa, quando estão juntos, o que é uma raridade e eles sequer conversam. São as famílias da era da informática! Têm sempre ao lado suas “maquininhas” ligadas e atuantes.

    Mas, voltando ao tema principal deste texto alguns malcriados, o que também não aprovo, responderiam que “velho é a mãe”. Nem que fosse o pai pela concordância verbal, claro. Aliás, o vocábulo velho tem também usos e sentidos bem interessantes. Vamos a alguns rápidos exemplos.

    Antigamente costumava-se chamar o pai de “meu velho” com o maior respeito e muito carinho. Amigão é uma palavra muitas vezes substituída por “meu velho amigo”. Igualmente velho tem alguns sentidos de elogio como quando se diz “o velho comandante”, e vai por aí a fora.

    Mas, julgo ser triste ver pessoas tratadas de velho ou de velha no seio familiar. Não nos sentidos por mim citados acima, mas por serem velho ou velha pela idade. Digamos que isto leva no bojo da palavra certo tom meio pejorativo, carrega, assim creio eu, uma boa dose de intolerância com quem já deu muito de si pelas mesmas pessoas que depois a tratam com indiferença.

    Todos nós temos muitos de nossos limites, que usávamos com desenvoltura quando mais jovem, com o passar do tempo não só reduzidos como até eliminados. Alguns procuram atividades mais condizentes com a idade que ostentam. Faz parte da vida de todos. Significa que não desistiram de viver.

    Esta postura é que deve ser honrada, pois a pessoa quer seguir merecendo os dias, meses e anos que a vida lhe concede para além da média habitual. Pensem naqueles que estando lúcidos percebem tudo, lamentam não poder ter a utilidade de antes, todavia sabem que se ainda vivem querem ser respeitados.

    Infelizmente o que hoje se vê através da mídia são exemplos, e muitos, de desrespeito total às pessoas mais idosas até em ambientes criados para acolhê-los e cuidar deles, as Casas de Assistência Social ou vulgarmente chamadas asilos. Infelizes os que a eles necessitam recorrer.

    Em casa eu sou habitualmente chamado por nomes como Simões, Saimon, Titó, Chico, Bartô (relembrem o excelente personagem que o saudoso Ronald Golias interpretava, o Bartolomeu Guimarães), mas nunca de velho, só quando eu mesmo provoco claro. A classificação que deram de fazer para nós, os mais vividos, de pertencermos a tal terceira idade me faz perguntar: e quem é da primeira e/ou da segunda idade?! Bolas, como hoje em dia gostam de rotular tudo, de usar e abusar de expressões tais como “focar” e outras que soam um tanto pernósticas! Fazer fotografia de si mesmo hoje virou “selfie”.

    Pobre língua portuguesa pisoteada, desrespeitada, escrachada, hoje sendo escrita nas tais redes sociais com horríveis hieroglifos. E querem nos impor um Acordo Ortográfico rejeitado pela maioria dos intelectuais portugueses, graças a Deus. Mais antiga que a língua portuguesa é a inglesa e permanece imutável até hoje, seja na Inglaterra, seja nos EUA, etc, cada qual com seu estilo e jeito de falar. Por aqui alguns picaretas querem sempre mudar algo que consideram velho sem respeitar que muito do que hoje é velho fez e continua fazendo história. Então por que velho?



    Francisco Simões. (01/Dezembro/2014)