Cr�nica
fm.simoes@terra.com.br
  • Poemas
  • Cr�nicas
  • Biografia
  • Fotos
  • Pr�mios
  • Produ��o e Administra��o

     

    SENTIMENTOS QUE ULTRAPASSAM A IRRACIONALIDADE


    Todos nós sabemos que os seres humanos são racionais e se diz que os animais são irracionais. Não pode haver nenhuma contestação quanto a isto, com certeza. É verdade também que os seres humanos já deram através dos séculos muitos e muitos exemplos de uma irracionalidade assustadora.

    Quantas guerras, fora as duas de alcance mundial, homens já promoveram matando milhões, ou muitos milhões de outros seres humanos apenas por desejo de conquista, de poder. Aliás, eu digo “mataram”, não, continuam matando. Basta estar a par do que vai pelo nosso mundo para nos horrorizarmos.

    Nações poderosas que se consideram símbolo da Liberdade já levaram o terror a tantos continentes tendo sempre por trás dos conflitos algum interesse político ou simplesmente de conquista contra outra nação, também poderosa, como no tempo da chamada “guerra fria”.

    Ainda hoje assistimos a cenas de barbárie com matanças não só de homens, que nem soldados são, mas de mulheres e muitas crianças covardemente em disputa de territórios. Outros o fazem em nome de algum deus que apoiaria suas atitudes terroristas como se houvessem variados deuses e fossem eles piores que o tal diabo, se é que este também existe.

    Seguirei mais um pouco neste preâmbulo ao texto no qual eu pretendo falar de algo muito mais digno, muito mais nobre.

    Agora trago o foco para o nosso país, por exemplo. É inadmissível que seres humanos agridam, torturem e até matem semelhantes por simples discussão de vizinhos, de problemas no trânsito, ou porque discordam da separação do cônjuge, levando algumas vezes esses atos de barbárie a matarem friamente filhos e filhas, ou netos, e vice versa, por disputas de heranças e coisas menores. Basta acompanhar o noticiário diário.

    A realidade que aí está nos oferece diariamente cenas as mais terríveis, desumanas muitas vezes. Ainda outro dia eu vi na TV um homem tentando afogar o seu cão nas águas de uma de nossas praias. Uma tentativa mais do que covarde de assassinato promovida por alguém que é considerado racional contra um ser dito irracional que confia sempre no amigo ou na amiga com quem convive.

    Outras cenas têm se repetido na TV nas quais pessoas, homens ou mulheres, é indiferente, levam seus bichos de estimação por estarem com muita idade para soltá-lo em algum lugar ermo, onde ele fique para morrer. Já vi um cão correr desesperado atrás do carro dirigido por sua ex-amiga e dona que o abandonara ali, pois ele, o cão, não imaginava que estava a ser vitima justamente dela. Muito triste.

    Este é o país em que nós vivemos, este é o mundo em que nós habitamos. Pois vou agora lhes contar ao que assistimos, eu e Lena, outro dia quando fomos ao bairro de S. Cristóvão, aqui bem perto, resolver uns assuntos. Estacionei nosso carro bem em frente à Igreja Católica.

    Íamos caminhando e ao chegarmos à Praça do bairro percebemos que um bonito cachorro, dos grandes, procurava fazer carinho numa bonita cadela, creio que da mesma raça, que estava deitada no chão da Praça.

    Diminuímos o passo e até paramos porque Lena me chamou a atenção mostrando-me que a fêmea parecia dormir um sono profundo, todavia não estava respirando. Nós nos aproximamos dos cães e confirmamos que a cadela devia ter sido atropelada ali ao lado e alguém depois a colocou no piso da Praça.

    O belo cão que a acariciara em seguida deu a volta no corpo dela e se deitou bem em frente a sua amiga, talvez namorada, talvez companheira, e ali permaneceu a olhar para ela. Fiquei estupefato (e nem devia ficar mais) com a quantidade de gente que passava e nem se dava conta da cena. Uma indiferença total.

    O triste cachorro esperava certamente que sua companheira despertasse daquele sono profundo. Ele não sabia que ela dormia, mas era o sono eterno. Alguém de uma banca ali perto nos informou que a cadela havia sido atropelada e alguém a pegou e colocou na Praça. O choque mortal não provocara ferimentos nela.

    Confesso que senti uma tristeza profunda e meu pensamento logo se transportou para a noite de Natal em que perdemos nossa linda e saudosa princesinha, a querida Safira, filha de Touche. E o cão não se afastava de perto de sua amiga numa fidelidade, numa lealdade que muitos seres humanos hoje não sentem mais por nada, por ninguém salvo poucas e honrosas exceções.

    Ao darmos alguns passos veio à minha mente a cena de um vídeo que um amigo me enviara. Uma cadela jazia ao lado da estrada após ser atropelada e um cão, desesperado, se agitava e latia para todos que passavam, mesmo de carro, como que a pedir ajuda para sua amiga ou namorada, ou companheira. Em rápidos intervalos ele tentava com a cabeça fazê-la mover-se.

    Jamais esquecerei aquelas duas cenas. Expressam sentimentos que ultrapassam a irracionalidade.


    Francisco Simões.