Crônica
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    PARA QUEM COMPREENDE E AMA OS ANIMAIS
    (Histórias verdadeiras de uma linda princesinha)


    Tudo começou no final de 2005 quando uma senhora ofereceu sua linda cadela yorkshire para namorar com nosso Touche. O nome dela era Sabrina. Bastaram três dias de um amor que eu testemunhei. O romance aconteceu na sala de estar de minha casa no bairro do Braga. Por coincidência também em Dezembro.

    Passados uns sessenta e tantos dias nascia uma linda cadelinha que nós batizamos de Safira. Ela teve mais um irmãozinho que ficou com outra pessoa. Decorridos uns poucos dias necessários para Sabrina poder dar de mamar a Safira esta foi trazida para o nosso convívio. Sempre teve um olhar profundo, muito comunicativo, e um comportamento bem personalístico que provocou ciúmes em Touche seu pai e até ali o reizinho da minha casa.

    Ainda quando muito pequenina ela fazia muitas travessuras como morder e mais morder um chinelo de Lena até acabar com ele. O que se deixasse ao alcance dela Safira não perdoava, mordia e com as patinhas ajudava a estraçalhar. Esses animais da raça yorkshire são assim mesmo quando ainda pequeninos. Mas eu quero lhes contar vários outros comportamentos de Safira que nos surpreendiam pela iniciativa totalmente dela sem que ninguém lhe tivesse ensinado aquilo.

    Safirinha apegou-se por demais a Marlene procurando sempre estar ao lado dela. Se Lena entrava no banho Safira a acompanhava e esperava deitadinha embaixo do móvel da pia ou no tapete à saída do Box. Isto acontecia sempre. À noite quando nos recolhíamos Touche ia para sua caminha, do meu lado, enquanto que Safira ocupava sua cama do outro lado onde dorme Marlene.

    Entretanto se antes de deitar Lena entrava no banheiro para escovar os dentes Safirinha levantava da caminha e ia direto para o banheiro esperar por Marlene. De lá somente saía quando Lena entrava no quarto. De manhã ela e Touche sempre levantaram junto com Marlene e quando esta ia tomar o desjejum para depois ir caminhar Safira já se postava na porta da sala para a varanda onde ficava esperando a volta de Lena.

    Ninguém podia se aproximar muito de Marlene e tentar fazer de conta que ia tocar nela que Safira rosnava e encarava, quem quer que fosse. Eu passei a dizer que Safira era “o anjo da guarda canino de Marlene”, com certeza. Se Lena se zangava com nossa Lady Coker, a Tuane, e esta não a obedecia Safira se impunha latindo e rosnando para Tuane que tem treze anos e é de raça bem maior que ela. Safira sempre foi uma escudeira das melhores para defender Marlene.

    Curioso que se nós saíamos de carro na volta enquanto eu parava do outro lado da rua esperando que Marlene fosse abrir o portão da garage, antes de pararmos já ouvíamos os latidos de Safira anunciando a chegada de Lena. Ficávamos impressionados com a sensibilidade dela. Isso acontecia sempre. Também se Marlene ia à rua sozinha fazer pequenas compras aqui por perto de casa, ela se postava ou na varanda ou mesmo perto da porta da rua esperando-a.

    Mais recentemente Safira me surpreendeu ainda mais com uma atitude que ninguém lhe ensinou, nem poderia. Marlene costuma levantar mais cedo que eu, por volta das sete horas, ela tomava o desjejum e ia à caminhada. Pois passados alguns minutos, 20 talvez 30, Safira passou a voltar ao quarto e ao lado da cama ficava a rosnar como que me dizendo que era hora de eu levantar. Eu brincava com ela, mas a obedecia, pois se eu não levantasse logo ela voltaria mais zangada.

    Interessante tal atitude de um ser considerado irracional e não adestrado para nada. Tudo que ela fazia partia dela mesmo, podem crer. Aquela cena passou a se repetir todos os dias. Como sentimos saudade de nossa princesinha tão linda, esperta, com reações surpreendentes, espalhando muita alegria e muita luz em nossa casa. Amamos também o Touche, pai dela, mas ele nunca fez coisas que ela fazia por iniciativa própria, sempre.

    Uma das cenas mais curiosas a que presenciávamos era quando Safira estava com fome e Lena de costas trabalhava na cozinha. Pois a cachorrinha começava a bater com a patinha direita na “cumbuca” de cor rosa em que colocávamos a ração dela. Sassá não parava de bater até que eu ou Marlene lhe déssemos o alimento. Nunca vimos nem ouvimos história alguma de outro cachorro que tomasse tal iniciativa.

    Quando compramos gás o Sr. Wanderley logo nos atende trazendo o bujão e o colocando no lugar. Pois sempre que ele entrava os cachorros latiam fazendo festa, todavia a Safira era a que mais latia, porém tinha “segundas intenções”. Lena presenciou por duas vezes ela quase colocando a boca no tornozelo do amigo Wanderley. E saibam que ele ama animais, tem cachorros e sempre tratou bem os nossos. Nunca entendemos aquela espécie de aversão de Safirinha a ele.

    Por essa e por outras é que Marlene costumava dizer que Sassá era uma cachorrinha “intisicada”. Esta palavra não existe, mas Lena a soltou certo dia e ficou. Sempre soubemos que Safira tinha problemas de rins assim como de coração, o que chega a ser comum nesta raça.

    Por motivo que não importa considerar agora, ainda aos dois anos de vida Safira chegou a dar a luz três filhotes que, num parto atropelado, não resistiram e morreram todos. A nossa então médica chegou a submeter Safirinha a três cirurgias em apenas 12 dias. Sofremos muito, choramos muito, algumas vezes entramos pela madrugada socorrendo Safira. A dedicação de Marlene ao último filhote de Sassá, tentando salvá-lo, é indescritível. Como Safira não tinha leite Lena tentou fazer o filhote tomar leite com seringa constantemente. Ele não resistiu.

    Acreditamos que aquele parto desastrado possa ter mexido muito com os órgãos de Safirinha, piorando talvez sua situação geral. Entretanto ela viveu ainda por mais de cinco anos alegre, cheia de luz, com uma personalidade que jogava para segundo plano tanto Touche, seu pai, como a Lady Coker Tuane.

    Quando íamos a rua com Touche e Safira, ambos na coleira, ela era quem despertava as maiores atenções. Geralmente nos paravam para vê-la de perto e a acariciar. Na caminhada, entretanto tínhamos que tomar cuidado, pois se Touche andava normalmente com passos suaves, Safira puxava pela coleira, estava sempre mais apressada. Seu coração acelerava e acabava nos assustando como aconteceu certa vez em Ipanema. Sassá perdera o fôlego e parecia estar passando mal. Paramos, demos-lhe água e a seguir um pouco de sorvete. Aos poucos ela se acalmou. Passamos a não fazer Safira andar muito, mesmo ela querendo.

    Temos um conjunto bem grande de fotos de Touche e Safira desde que eram bem pequenos ainda. É uma recordação que nos trará sempre a imagem de nossa princesinha. Quanto a nossa casa, como diz Lena com os olhos marejados, está agora muito silenciosa. Faz-nos muita falta a presença, a zorra, a alegria, a luz que Safirinha espalhava por aqui e que agora levou para outro plano.

    A verdade é que mesmo sabendo que não a teríamos para sempre, não fazíamos idéia do quanto sua ausência doeria tanto em cada um de nós, mesmo em Touche e Tuane. Ah, se arrependimento matasse, gente boa... isso não dá para explicar, mas guardaremos como uma mágoa que dificilmente se apagará.

    Safira teve um enterro digno num pequeno cemitério organizado por um senhor, o Jorge, que o administra. Ela está lá identificada por uma lápide onde consta o seu nome. Por que não? Era o que eu ainda precisava lhes contar para conhecerem melhor essa digna princesa canina.


    (Francisco Simões – 28/12/2013)