Crônica
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    CULTURA DE SAIA CURTA


    Aconteceu no ano de 1999. Eu voltara de quatro longos períodos morando na Europa. Claro que fui diversas vezes a Paris além de ter também visitado muitas outras cidades européias.

    Na capital francesa uma das coisas que mais me fascinou foi comprovar a quantidade de Livrarias existentes a cada quadra. Claro que sob a ótica do turismo, Paris tem muitas outras atrações fantásticas, porém para quem gosta de leitura, de pesquisar obras variadas, não existe cidade no mundo que se compare a Paris.

    Depois desta experiência que vivi durante o correr de quatro anos que por lá morei, em 1999 tive que voltar à realidade brasileira. Certa tarde eu fora procurar a Livraria Siciliano, bem ali na rua Visconde Pirajá, há apenas dois quarteirões de meu apartamento, em Ipanema.

    Eu costumava ir à Siciliano de Ipanema e passeava entre as seções, entre as prateleiras, procurando um livro, obras de algum autor, ou simplesmente tentando descobrir algo que eu não conhecia, porém poderia ser-me útil e agradável comprar. Era a melhor e mais completa livraria de Ipanema.

    Naquela tarde me deparei com uma cena inesperada. Não havia mais aquela livraria; a Siciliano sumira e no seu lugar estava uma loja de roupas, inicialmente só de vestimentas femininas. Foi um choque, pois era das raras chances que tínhamos naquele bairro de visitarmos uma livraria.

    Depois criaram outras que algum tempo após foram novamente sendo substituídas principalmente por Farmácias e Drogarias. Em verdade um povo que abre mão da cultura deve estar mesmo muito doente. Hoje existem umas poucas e boas livrarias entre Ipanema e Leblon. Comparado com Paris tomamos de goleada.

    Voltando ao episódio da “morte” da maravilhosa Siciliano de Ipanema, em 1999, no primeiro dia que lá estive sentei-me a uma mesa de um pequeno bar que eles colocaram logo na entrada da nova loja. Fiquei olhando em volta e vendo tudo que fora substituído, sem a menor cerimônia, por prateleiras e outros mostradores, mas de roupas femininas.

    Começaram a vir à minha mente os primeiros versos da poesia que ao chegar a casa terminei rápido de escrever. Extravasando meus sentimentos com toque de humor, mas muita decepção, eu terminei o poema com essas palavras:

    “...A indiferença passa e nem disfarça,
    E a minha rua ficou mais nua
    Para bem vestir as meninas!”

    Eu os convido a ler na íntegra meu modesto, mas verdadeiro poema “Cultura de Saia Curta”. E até o próximo mês, amigos e amigas.

    Francisco Simões. (Junho /2013)


    CULTURA DE SAIA CURTA

    A minha cidade, a minha rua,
    Estão ficando mais pobres,
    Estão ficando mais nuas.

    Despiram-nas de alguns teatros,
    Cinemas, já nem sei quantos,
    Mas ainda me causa espanto.

    E entre um estupro e um assalto,
    A cultura, de mãos para o alto,
    Assistiu a um assassinato:
    Fecharam outra livraria.
    Contos romances, poesias, que dia!

    Nem as prateleiras respeitaram,
    No seu lugar penduraram
    Peças, mas de roupas femininas.

    A indiferença passa e nem disfarça,
    E a minha rua ficou mais nua
    Para bem vestir as meninas!

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    Autor: Francisco Simões.
    Em: Outubro / 1999.
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