Crônica
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    CARNAVAL DE CINZAS


    O Rio já teve que conviver com várias tragédias, durante o verão, provocadas por chuvas fortes. Ainda há três ou quatro anos houve muita desgraça em morros no âmbito de Niterói, do outro lado da ponte. Pessoas estão desabrigadas até hoje.

    No ano de 2011 as chuvas castigaram principalmente a zona de serras. Nova Friburgo, Petrópolis, Teresópolis e vizinhanças sofreram e muito quando a água que caiu de repente encheu rios, antes calmos, arrastando trechos de ruas, muitas casas, pessoas morreram e quantas perderam sua morada. Foi outra das grandes tragédias de verão porque tem passado o nosso Rio de Janeiro.

    O que me levou a escrever os versos que lerão abaixo aconteceu há algum tempo, porém não anotei a data certa. Houve um ano em que às vésperas do grande desfile das Escolas de Samba no Rio de Janeiro de repente o tempo mudou. As nuvens passaram de cinza para negras e não demorou a cair um temporal dos mais fortes que a cidade já viu.

    Barracões de algumas Escolas foram seriamente danificados e outros destruídos com a fúria do tempo. Muitas das fantasias e adereços a avalanche de lama carregou não restando quase nada para os participantes utilizarem. Alguns carros alegóricos ficaram com sua estrutura comprometida.

    O pior de tudo foram algumas vidas que se perderam naquela tragédia. Chegou-se a pensar que naquele ano não haveria o famoso desfile das Escolas na Sapucaí. O quadro levava todos a pensar assim, mas os que sobreviveram reagiram à tragédia e acharam que desfilar, fosse como fosse, seria uma questão de honra. Iriam tentar mesmo na dor, no sofrimento imenso de todos, fazer alguma homenagem às pessoas que a morte não poupara.

    Por isso eu escrevi: “... A alma que canta, a manta / De felicidade ocultando / Mágoas, Pesares, Saudade / Que acorda com uma lágrima / Que transborda das águas / Das alegrias soterradas / Das fantasias pintadas / De lama, de lodo e sangue...”

    Das cenas terríveis a que assistimos só podíamos concluir que a vida lhes propusera um “enredo de morte”. Mas o que se viu depois na tradicional Passarela do Samba, na Sapucaí, foram pessoas chorando, porém seguindo em frente substituindo a morte pela vida que sobrara e respondendo com um “Carnaval de Cinzas” a todo um cenário de dor.

    Leiam, por favor, minha poesia escrita naquele ano, tentando descrever o que minha alma e meus sentimentos demonstravam em solidariedade àquela brava gente que superava tudo.

    Francisco Simões. (Fevereiro/2013)

    CARNAVAL DE CINZAS

    Enquanto a alegria nascia
    No asfalto as fantasias
    Carregavam a folia
    E a negra noite espiava
    Enquanto esperava o dia
    E a euforia cantava
    P’ra vida que aplaudia.
    Nos risos, nos sons dos guizos,
    Bumbos, zabumbas, retumba
    O anseio de ser feliz.
    Ecoam brados de festa
    Numa gigante seresta,
    Prazer nos pés e nas ancas
    É o corpo que banca,
    A alma que canta, a manta
    De felicidade ocultando
    Mágoas, pesares, saudade
    Que acorda com uma lágrima,
    Que transborda das águas,
    Das alegrias soterradas,
    Das fantasias pintadas
    De lama, de lodo e sangue,
    Dos sonhos de Carnaval
    Afogados num mangue
    Com um enredo de morte.
    O samba propõe um corte:
    O surdo se mantém mudo,
    Há um surto de silêncio
    Que se espalha pelo ar.
    O respeito em um minuto.
    A dor que chora o luto
    Volta já a desfilar.
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    Autor : FRANCISCO SIMÕES
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    Francisco Simões. (Janeiro/2013)