Crônica
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    PASSAGEM DO ANO SEM FOGOS


    No passado, anos 60, me lembro de ter ido a Copacabana assistir à festa da passagem de ano. Eram anos tranqüilos quando não se tinha receio de sermos abordados pela violência na ida ou na volta. Mas os tempos foram mudando, e sobre este aspecto, para pior.

    Depois o hábito passou a ser assistir ao espetáculo dos fogos, à meia noite do dia 31/Dezembro, porém pela televisão. Estávamos em casa e seguros sem temermos o que espreitava por nossas ruas a cada ano com mais sede de violência. Nunca mais fomos a Copacabana ver os fogos.

    Com o passar do tempo viemos estar aqui em Cabo Frio na mudança de ano e aí valorizávamos o mesmo espetáculo, porém nesta cidade que amamos muito. Nem precisávamos nos meter no meio da confusão, ser pisoteado, estar entre bêbados e outros quase, lá para os lados do Posto Dois onde, de dia, passávamos em nossa caminhada pela praia.

    Eu morava no bairro do Braga, pouco antes de onde ocorriam os fogos de fim de ano. Íamos então para cima de determinada duna de onde eu ora fotografava ora filmava aquele lindo espetáculo. Isto quando o tempo não resolvia se intrometer e mandar chuva para atrapalhar nossa alegria. Ali se reuniam vários amigos do Condomínio onde eu morava e onde ainda tenho uma casa.

    Mas, no corrupio da roda-viva, como escreveu Chico Buarque de Holanda em uma de suas letras musicadas, “... o tempo passou num instante nas voltas do meu coração...” E foi assim mesmo. Um dia a vida era rosa no outro foi mudando para cinza até tornar-se num imenso pesadelo. O destino alterara o nosso script e a felicidade virara saudade. No centro o amor tentava sobreviver.

    É como um recomeçar de vida, um renascer sem futuro certo. Sem desanimar eu segui em frente. Passei a ver os fogos naquela mesma duna do Braga, mas de mãos dadas com duas boas amigas que me apoiavam Marlene e outra que depois sumiu. Dali pra frente ou íamos à duna ou víamos os fogos em casa pela TV. Eu ou estava só na minha casa ou na residência da amiga Marlene junto com seus filhos.

    E a roda-viva girou e girou mais uma vez nos surpreendendo. Havia uma perspectiva de esperança que se desenhava para mim no continuar da vida. Percebi que eu não estava mais totalmente sozinho, porém que havia um novo caminho a trilhar dali pra frente com surpresas, alegrias, desencantos, ou um mundo novo a ser reconstruído. Aceitei o desafio e nele plantei minha esperança.

    No fim de cada ano que se seguiu voltamos a ver os fogos pela televisão. Até vimos a linda festa que é feita na cidade do Porto, em Portugal, transmitida ao vivo pela RTPI. Com o fuso horário os fogos do Porto podem ser vistos às 22 horas do Brasil. Mais lembranças, mais recordações de quatro longas etapas de vida passadas em terras lusitanas. Experiências que semearam muita saudade no meu coração já que eu sou e sempre fui luso-brasileiro.

    Entretanto neste ano de 2012, outro dia Lena me falara do seu desejo de passar a virada do ano no interior de uma igreja. Jamais eu a deixaria só numa experiência dessas. Ademais era para mim algo desafiante, diferente, talvez até consagrador.

    Enquanto haveria mais de dois milhões de pessoas em Copacabana e mais de um milhão a ver os fogos aqui em Cabo Frio, nós poderíamos estar entre apenas poucas centenas de pessoas, geralmente famílias, homens, mulheres e crianças que buscavam algo diferente. Julinho, filho de Lena, ao saber da nossa decisão concordou em ir conosco levando também sua esposa, a Inês.

    Nós nunca participáramos de algo assim nem fazíamos uma idéia correta de como seria a cerimônia. Saímos de casa pouco antes das 22 horas e lá já estavam algumas pessoas. Havia muitas vagas para estacionar em torno da Igreja. O tempo estava fresco, soprava um vento forte, além dos ventiladores em parte da Igreja e ar condicionado em outra. Lena me dissera que perto da meia-noite deveria haver o que eles consideram uma ceia das famílias. Eu não fazia idéia de como seria.

    Para mim aquilo era uma novidade, e para Lena também. Pessoas se revezaram cantando, ora individualmente, ora em pequenos grupos. Havia também leitura de trechos da Bíblia e rápidos pronunciamentos. A certa altura fui até o banheiro e no caminho conversei com um senhor perguntando-lhe o que aconteceria quando fosse meia-noite. Ele me disse que pouco antes serviriam a tal ceia das famílias.

    Eu estava contente, me sentia bem, era uma experiência pela qual nunca passara. Realmente poucos minutos antes de estourarem os fogos lá no Forte vários jovens começaram a servir numa bandeja um pequeno pedaço de pão e um pouco de suco de uva integral em pequenos copos de papel. Por sinal suco de uva integral é o que tomo no almoço e no jantar já há alguns anos.

    As famílias comeram o pão e tomaram o suco e depois oraram em silêncio. Como eu evito me ajoelhar por problemas ocorridos em meus joelhos na estrada para Brasília em 1974, eu rezei sentado como outros poucos de idade mais avançada. Mais ao final o condutor da cerimônia pedira que as pessoas pegassem na mão de seus vizinhos, de seus maridos, esposas, irmãos, de pessoas que amam, etc.

    Logo percebi que minha mão esquerda era tocada, acariciada e segura com firmeza. Como sou um tolo sentimental me emocionei. Não sei viver sem amar, ainda que a reciprocidade nem sempre ocupe o espaço que eu desejaria, mas cada um se manifesta da forma como a vida ajudou a construir seus sentimentos. Um simples sorriso acendeu em meu coração cansado nesta vida permeada de alegrias e decepções uma luz de felicidade.

    Aquilo, por mais tolo que possa parecer para alguns, para mim teve um significado especial. Entendi como um bom augúrio no começo de uma nova jornada, um presságio a comemorar, ou como diria alguém: “um Ano Novo abençoado”.

    Novamente “o tempo passou num instante nas voltas do meu coração”. Vida que segue. Os fogos não nos fizeram falta alguma.


    Francisco Simões. (Janeiro/2013)