Crônica
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    UM CONTO REAL DE NATAL


    Hoje é Dia de Natal, muitas famílias se reúnem, comemoram, reencontros ocorrem, enquanto muita fome, muita solidão, só vê de longe, só sente à distância, que hoje é Natal. Ouvem-se no ar cânticos e mais cânticos, vozes a entoarem “Noite Feliz”. Para muitos realmente o é, mas não para todos.

    O lado injusto da vida que tantos cantam em louvores mil nesta noite atira pessoas ao desencanto, as condenam a leitos de hospital, ao silêncio de um retiro involuntário, por exemplo, numa casa de repouso. Nesta noite de Natal ocorrem muitos contos, muitas histórias reais, mas que nem todos gostam de saber.

    Eu venho lhes falar de um jovem que sempre esteve disposto a ajudar quem o procurasse para o que quer que fosse. Do pouco que ele tivesse tiraria um tanto para aliviar o nada de algum semelhante. Sou testemunha de vários exemplos dele.

    Com o passar do tempo ele foi mais longe, passou a se vestir de Papai Noel, reunia uns poucos amigos ou parentes, e ia levar alegria a comunidades carentes em alguns subúrbios no Rio que ele freqüentava. Mesmo sentindo alguma dor ele superava tudo para ver o sorriso feliz de tantas crianças que, sem ele, jamais veriam o Papai |Noel em que elas acreditavam.

    Convivi muito com ele, afinal eu integrava a família a que ele pertencia. Um dia decidi trazer aqui para Cabo Frio o Natal que ele já promovia há algum tempo. Conversamos e programamos naquele ano que, com a ajuda de uma senhora espírita, nossa amiga, levaríamos as ilusões de felicidade para muitas crianças que só ouviam falar em Papai Noel, porém este jamais atendia a seus pedidos.

    Naquele Natal ele trocou de roupa em minha casa e nos dirigimos à comunidade em que nossa “caravana” iria levar muita alegria, muitos presentes, a meninos e meninas de pés no chão, vestidos com poucas roupas. Havia muitas famílias no Centro Espírita, naquela tarde natalina. Quando vimos a quantidade de crianças tememos que os presentes que obtivéramos não fossem suficientes, mas felizmente deu tudo certo, bem na medida mesmo.

    Com o calor que fazia, a roupa de Papai Noel aliada à emoção do momento, o estava deixando meio zonzo. Ele resistiu como pode, mas acabou pedindo um breve intervalo enquanto foi descansar rapidamente numa pequena sala e lá bebia muita água para compensar o imenso suor que seus poros destilavam. Logo depois retornou à ativa e a fila estava lá, feliz, alguns pulando em seu colo, outros pedindo para serem fotografados com o bom velhinho.

    Naquele dia sentimos que se fizemos bastante por tantas crianças carentes, havia ainda muito mais a fazer no próximo ano. Junto com meninos e meninas havia muitas mães e alguns pais que tentavam mostrar alegria, felicidade, mas eles e elas não podiam esconder o cansaço da vida, a fome que carregavam no olhar, no jeito de ser, e nas respostas às perguntas que eu lhes fiz.

    Após o evento logo decidimos que no ano seguinte levaríamos não apenas presentes para as crianças, mas alimento, muito alimento, já que a pobreza era mais do que evidente necessitar e muito também da ajuda de Papai Noel. Fizemos diversos contatos, buscamos ajuda amiga, empenhamos o que pudemos, e assim arrecadamos bastante para aliviar não apenas o sentimento de frustração das crianças sem Natal como dos pais e mães para os quais a vida parece que lhes virara as costas definitivamente.

    Era outro ano, outro Natal. Ele se sentia um pouco enfraquecido com uma doença que avançava lentamente, mas não se recusou a participar. Aqui veio novamente, voltamos ao mesmo local, os presentes eram em número ainda maior que no ano anterior. Os olhinhos das crianças brilhavam vendo novamente Papai Noel ali bem perto deles e seus pais, emocionados, percebendo o que nós fizéramos, nos agradeceram quando nós é que deveríamos dizer-lhes obrigado por nos dar a oportunidade de reacender esta chama cristã de amizade e bondade.

    Mais enfraquecido o nosso bom velhinho quase desmaiou a certa altura com o calor, a emoção, e a doença que avançava lentamente, porém que ele fazia questão de não deixar que o abatesse. Nos fez muito bem ver tantos sorrisos e lágrimas de felicidade embora temêssemos pela saúde de quem sempre amamos muito.

    Mas a vida dá muitas voltas, nos surpreende constantemente, nos prega peças, surpresas, mudando repentinamente um script que nos fazia crer num viver ainda mais longo e feliz. Repentinamente algo mudou o rumo de tudo. O destino nos impôs um ano e meio de ansiedade, angústia e sofrimento. Ela, que como tia sempre o teve como a um filho, acabou por passar deste plano para outro, impondo também a mim uma solidão e uma dor, sofrimentos para os quais eu não estava preparado, se é que alguém alguma vez está.

    Uns poucos amigos e amigas, entre eles o nosso querido “Papai Noel”, confortaram-me por um longo tempo. Antes eu tivera que aprender a viver um Natal sabendo que seria o último com ela. E assim foi, levantei a cabeça, tentei reescrever minha vida. De repente parece que o destino queria jogar mais castigo sobre nós. Logo a mãe dele, do nosso “Papai Noel”, também partiu desta vida.

    O choque iria impor mais Natais sem pessoas que ele amava tanto e quando ele mais precisou, quando a doença a que me referi acima começou a se agravar, ele se sentiu quase só, irremediavelmente só. O tempo foi implacável com quem tanto levou alegria e felicidade a pessoas carentes, um castigo não merecido. Felizmente houve quem o socorresse nessas etapas mais cruéis da doença, e ainda o socorrem, pessoas bem chegadas a ele, poucas, mas importantes.

    Hoje é Natal novamente, muita coisa eu estava recordando quando resolvi telefonar para ele. Nosso querido “Papai Noel” não tem mais renas, nem charrete, e raros, muito raros amigos de verdade. Conversei com ele e tive que me conter, pois a emoção quase me traiu. Sua voz não era a mesma embora ele tentasse me passar uma mensagem positiva na medida do possível.

    Hoje o nosso “Papai Noel” que tanto amamos luta pela vida numa casa de repouso, entre quatro paredes, num pequeno quarto só seu, porém dependendo de um tratamento que não acaba nunca. Estará vivendo mais um Natal solitário, esquecido pela vida que tanto ele ajudou a ser um pouco mais alegre e feliz quando pode. Não é ficção, mas sim um conto real de Natal, ou de Natais, que eu jamais esquecerei, pois tenho participado deles de alguma forma, hoje mais inconformado do que nunca.

    Feliz Natal para ti, “Papai Noel” querido. Que jamais desistas de viver e que te recordes do tanto de bem que espalhaste nesta vida enquanto pudeste. Que sintas sempre orgulho do ser humano que tens sido. Nós te amamos.


    Francisco Simões. (25/Dezembro/2012)