Crônica
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    TRÊS DENTISTAS DA MINHA VIDA


    Todos temos, durante nossas vidas, que conviver por um bom tempo com aqueles que cuidam da nossa higiene bucal, mantendo perfeitos, na medida do possível, os nossos dentes. Não há como fugir disso, gostemos ou não.

    Quem disser que nunca se importou de sentar numa cadeira de dentista, me desculpe, mas deve estar falseando com a verdade. Arrisco-me a afirmar que não existe alguém tão “heróico” que tenha o maior prazer em ir à uma consulta com algum odontologista. Que sorria e se sinta feliz ao encarar um boticão ou mesmo aquele instrumento que chamam de broca, que a mim lembra sempre uma tortura.

    Quando criança o dentista de minha família era o Dr. Álvaro. Pessoa educada tinha o hábito de passear a cavalo, o que fazia aos domingos geralmente na companhia de meu avô materno. Naqueles tempos, anos 30, 40 e mesmo 50, o Dr. Álvaro usava a broca à base de pedal. Não era ainda elétrica.

    Como ele era forte, resistia bem ao pedalar constante para fazer uso da torturante broca. Aos meus olhos de criança, ao vê-lo avançar para mim empunhando aquele autêntico instrumento de tortura, mais parecia que eu fora condenado a certo tipo de inferno em vida. Anestesia só era usada mais para extrações de dentes. Nas obturações e tratamento de canal dificilmente a usavam.

    Eu confesso que me lembrar, ainda hoje, do que sofri, tanto com a mão pesada do Dr. Álvaro, como com o emprego daquela parafernália toda que compunha o seu instrumental de trabalho, me dá arrepios, amigos. Cheguei à juventude, em Belém, vendo vicejar em mim uma forte aversão àquele tipo de profissional. Lamentável.

    Anos depois, já morando no Rio de Janeiro, e trabalhando no Departamento Médico do BB, conheci o colega e bom amigo Luis Antonio Pereira da Silva. Ele exercia, fora do Banco, a profissão de dentista. Acabei sendo seu cliente.

    Era o segundo que eu encarava e que, por ser uma pessoa mais afável, um profissional competente sem aspirações a “carrasco”, acabou fazendo com que aquele medo, já quase pavor, de sentar numa cadeira de dentista, fosse sendo reduzido a um patamar mais razoável, mais aceitável, menos terrificante.

    Ele me atendeu desde os anos 60 até começo dos anos 90 quando decidiu se aposentar. Confesso que este “divórcio” me deixou preocupado, em princípio, já que, quando necessitasse de atendimento na área da odontologia teria que enfrentar nova adaptação a outro profissional. Para mim seria complicado.

    Felizmente fiquei muitos anos sem necessitar me lançar a outra “aventura” naquela área. Foi somente no ano de 2004, quando já estava viúvo, que precisei procurar o terceiro dentista da minha vida. Por indicação de uma das irmãs de Lena cheguei à Dra. Andréa, aqui mesmo em Cabo Frio.

    Sem faltar com respeito àquela jovem profissional eu diria que ela conseguiu me demover da minha posição bastante radical em relação à sua profissão. Algo, mal comparando, como uma “simpatia à primeira vista” entre este cliente medroso, teimoso, e uma profissional simpática, educada, competente, moderna nos seus métodos de trabalho, afastando-me definitivamente daqueles tempos em que ir ao dentista era para mim uma verdadeira tortura.

    Não diria que venci totalmente o medo, mas hoje encaro melhor a necessidade de sentar-me na cadeira de Dra. Andréa. Ainda não cheguei a alcançar um grau tal que a profissional pudesse me dar uma nota 9 ou 10 como seu cliente. Confesso que não, mas por culpa unicamente da minha memória do primeiro dentista com quem tive que me defrontar na vida.

    Na verdade aquilo me marcou e muito mesmo. De quando em vez tenho lá uma recaída. Dra. Andréa é muito paciente comigo e vai relevando, embora vez ou outra ela me chame para a real.

    É que às vezes acabo me comportando como se fosse um garoto assustado, naqueles momentos, temendo uma “tortura” que acaba por não acontecer. Infelizmente a idade nem sempre significa tanto amadurecimento assim em se tratando do assunto odontologia.

    E quem quiser me gozar, quem desejar rir da minha franqueza e desprendimento ao me abrir com sinceridade total, pois que atire a ... não, atire, não, mas que enfrente a próxima broca de forma bem relaxada, sorrindo e sem nenhum temor. Espero que consiga.


    Francisco Simões. (Dezembro / 2012)