Crônica
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    É NATAL? E PARA ELES?


    Vem chegando o Natal novamente. Já ouço aquelas musiquinhas que todo ano são repetidas, seja no rádio, seja na TV, especialmente em anúncios que visam vender algo na época natalina.

    Vender é o objetivo maior de muita gente valendo-se da figura do bom velhinho que, por seu lado, também fatura algum posando com crianças, fazendo o tal “ho-ho-ho” e angariando sorrisos, fotos etc. Este é o Natal deles.

    Digo deles, porém aludindo aos comerciantes. Sim porque o “deles” a que me refiro em meus versos no poema abaixo não vendem nem compram nada. Apenas vivem como a sorte, ou o destino, ou Deus, para alguns crentes, lhes permite.

    Desculpem mas eu não consigo, já há um bom tempo, ver ou sentir o Natal, aquele em que tanta gente comemora, tanta gente se sente feliz, tanta gente canta, come e bebe com a mesma visão e o mesmo sentimento da maioria das pessoas. Claro que respeito as convicções de meus familiares e jamais tentei lhes impor as minhas.

    O clima que fica no ar, as músicas que se repetem tudo me arremete aos excluídos, àqueles que não têm porta nem janela, quanto mais mesa. E eles, gente amiga, são milhões, muitos milhões se considerarmos a população de nosso planeta.

    Os que cantam, comem, rezam naquela noite são com certeza todos cristãos ou algo parecido a isso. Comemoram o que dizem ser o nascimento do Salvador. Já fui criança, cresci em uma família feliz, que também era cristã, que escondia presentes para nós, os filhos e netos, numa grande sala próxima a uma linda árvore de Natal bem ornamentada para verem nossa alegria na manhã seguinte.

    Tive muitas noites felizes de Natal em família naqueles tempos. Hoje cresci muito, muito mesmo, passaram-se muitos anos e a vida me foi mostrando, ensinando que o destino, ou a própria vida não é justa para com todos os seres viventes.

    Alguns poderão dizer que temos o livre arbítrio e que muitos dos chamados excluídos se encontram nesta situação muitas das vezes por opção pessoal ou por não terem procurado uma direção certa no seu viver. Será mesmo? Você acredita nisso de coração? É fácil e muito cômodo fazer tal julgamento quando por uma ou outra razão a vida foi mais pródiga conosco.

    Ainda que consideremos os casos dos que se perderam ao longo de sua caminhada nesta vida terrena, e isto eu sei que existe, grande parte da população tida como excluída o foi geralmente pela própria sociedade de uma forma ou de outra. E não esqueçamos (isto vai para os verdadeiramente cristãos) que Jesus intercedeu em defesa de uma mulher, prostituta, contra uma turba que a apedrejava impondo-lhe um castigo por julgamento meramente preconceituoso. Está na Bíblia.

    Ele teria então dito: “Atire a primeira pedra quem nunca errou”. Pois é, hoje eu não acredito em pecado, nem em demônio, mas sim em pessoas boas e/ou más, em atitudes dignas, éticas, ou não, e quando posamos de juízes de alguns semelhantes devemos lembrar que um dia poderemos ser nós a estar no banco dos réus.

    Ninguém é perfeito e os inúmeros maus exemplos dados atualmente por quem deveria encaminhar seus fiéis ao caminho da Verdade, (esta observação vale para todas as religiões atuais) provam que o mal existe em nossos corações, porém só prevalece quando o bem não se sobrepõe a ele. O diabo é figura decorativa.

    Desculpem, mas ainda que eu até me comova com a reação de certas pessoas na época natalina, o mesmo sentimento não me inspira ou me convence a escrever como vejo muitos fazerem. Nada tenho contra, apenas meus olhos e meu coração, no Natal, se voltam para outro lado. Convido-os a ler meu poema “O Natal deles”.

    Francisco Simões. (Dezembro/2012)

    O NATAL DELES

    É Natal... pois é,
    Para você, talvez, pode ser,
    Para mim, talvez, até seja,
    Mas veja, e para eles?
    É, e para eles?
    É Natal... pois é,
    Mas afinal eles são milhões,
    Corpos, almas, mentes, corações,
    Sem porta, sem janela,
    Sem mesa, sem panela,
    De incertezas rodeados,
    Um imenso abandono
    Sem sonhos, sem sono,
    Pesadelos acordados.

    Ah, eles caberão em suas orações?
    É, também rezarei por eles,
    Afinal, é Natal,
    E assim nós dormiremos em paz.
    Mas ... e eles, e eles?
    Será que irão dormir?
    Será que irão acordar?
    Para quê? Para continuar a pedir,
    A implorar? Para mendigar
    Por sua própria vida?
    Então nada vai mudar
    Ainda que possamos orar
    Por eles? ... Não há saída?
    É, afinal, é Natal ... mas não é deles.
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    Por: Francisco Simões.
    Em: Dezembro / 2005.
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