Crônica
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    CINZAS DO TEMPO


    Hoje decidi dar ao meu pequeno texto o mesmo título do poema que abordarei.

    A inspiração me ocorreu em plena primavera de 1997. Era um dia ameno, mas com um sol que convidava a caminhar pela praia deixando que a marola do mar, vindo até a praia, banhasse suavemente nossos pés.

    Caminhávamos, eu e minha então esposa, conversando, nos deliciando com as imensas dunas brancas que emolduram a paisagem da nossa praia. Elas já foram muitas e bem maiores, no passado, porém ainda resta o suficiente para nos encantar e a todos que nos visitam.

    Costumávamos ir até o Forte e de lá retornar esticando nossos passos até bem para além do Posto Dois onde habitualmente nós fincávamos nossa base e tínhamos toda assistência do amigo da barraca Baleia Azul.

    Outras vezes caminhávamos até a praia entre as dunas do bairro do Braga e após a caminhada nos deixávamos ficar na sombra larga da outra barraca onde costumavam também estar outros moradores do nosso condomínio, vizinhos e amigos. Nós éramos mais do time da água de coco, pois eu já renunciara à cervejinha gelada há algum tempo. Não mais ingeria álcool.

    Naquela manhã, mesmo durante o caminhar, observando o movimento das ondas, o seu vai e vem, acariciando as areias brancas da linda praia daqui, começaram a me surgir alguns versos. Outras vezes eu costumei iniciar algum poema enquanto estava na praia, apenas naquele dia a inspiração levava meu pensamento para um tempo mais distante.

    Comecei a gravar as primeiras palavras num pequeno gravador Sony que eu costumava carregar para esses momentos: “A maré, a vazante, / O mar retirante / Recua diante / Da minha tristeza, / Presa de lembranças, / Represa de imagens, /Personagens, história...”

    Como podem depreender eram as cinzas do tempo que vinham me visitar através da memória. Ocorre que em verdade eu não pensava em ninguém em particular e ao mesmo tempo eu me lembrava de várias situações de relacionamento que vivera no passado bem distante. Eu completara então 61 anos de idade.

    O contexto exposto pelos primeiros versos começou a despertar certo ciúme em minha então esposa. Ela desconfiava de algo que não estava na minha inspiração, porém foi difícil fazê-la mudar de opinião, mas depois ela acabou cedendo.

    Claro que o poema não foi totalmente composto durante as horas que permanecemos na praia, apenas os primeiros versos, como eu já disse. Mais tarde, já em casa, ouvi tudo diversas vezes e prossegui na criação desta poesia.

    “Cinzas do Tempo” foi uma de muitas poesias que eu jamais coloquei em algum concurso literário. Gosto muito dela, como gosto de todas, ou não as teria escrito e divulgado. Apraz-me este estilo de versos curtos, diretos, embora nem sempre seja o caso de se escrever um poema nesse formato.

    Em verdade naquele momento foi mesmo a “saudade antiga” que me trouxe de repente aquele desejo, aquela inspiração de escrever tais versos. Convido-os a ler então meu poema “Cinzas do Tempo”. No próximo mês tem mais.

    Francisco Simões (Outubro/2012)


    CINZAS DO TEMPO

    A maré, a vazante,
    O mar retirante
    Recua diante
    Da minha tristeza,
    Presa de lembranças,
    Represa de imagens,
    Personagens, história
    Que desenhei na memória
    Com as cinzas do tempo.
    Um dia de sol,
    Trevas na alma,
    Um momento, uma calma,
    A pausa na dor.
    Um alento, uma passagem,
    Entre o amor e a amargura,
    Entre a culpa e a tortura.
    A frescura, a brisa,
    Me seduzem, me abraçam,
    Festejam, me envolvem
    E assim me devolvem a paz
    Que deseja ficar
    Mas, fraqueja e passa.
    Um dia de sol,
    A praia, a vida,
    Na contrapartida
    O escuro, o mergulho
    Na saudade antiga,
    Amiga, inimiga,
    Refúgio, pensar,
    Que agora me obriga
    A rever e chorar.
    .......................................................
    Autor: FRANCISCO SIMÕES
    Em: Setembro / 1997