Crônica
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    A NATUREZA ME ENTENDIA


    Naquela noite de Dezembro de 2005 eu vivia mais um tempo de solidão, em Cabo Frio, junto apenas com meu lindo cachorrinho Touche, que tinha então quase dois anos, e o computador.

    O grande Condomínio em que fica minha casa no bairro do Braga ainda estava vazio, a “invasão de verão” ainda não começara. Eu contava apenas com minha vizinha na casa da frente e mais uns poucos que também lá moravam, porém em locais mais distantes da mesma rua que chamávamos de “Rua do Meio”, privativa.

    A certa altura percebi que chovia, aquela chuva fina que alguns chamam de sereno. A TV estava desligada e o Touche cochilava no sofá ao meu lado. Eu escrevia mais um dos textos que divulgo semanalmente.

    De repente percebi que algumas das gotas da chuva caíam exatamente sobre uma lata que estava esquecida do lado de fora, na parte de trás da casa, no andar de baixo, e emborcada.

    Eu estava concentrado em meus pensamentos no trabalho que desenvolvia no computador. Foi como um despertar para outra realidade aquele “insight” que me atirou ao som que vinha do lado de fora da casa. Eu estava no andar de cima no meu escritório.

    A chuva continuava no seu ritmo lento. As gotas, ao bater no fundo da lata, passaram a levar minha atenção para aquele som que parecia querer me dizer algo. Era como uma música suave e sentida que compartilhava comigo mais uma noite de imensa solidão e saudade.

    Interrompi o texto que estava escrevendo e aos poucos fui me deixando levar pela imagem poética que aquele clima criado pela noite, a chuva lenta, o som das batidas na lata, e o sentimento que me envolvia, criavam na minha mente.

    Comecei então a escrever os primeiros e curtos versos: “Sereno, serenata / Molhada, ritmada / De gotas numa lata / Abandonada / Esquecida no quintal.”

    A inspiração passou a fluir fácil e o esforçado, mas falso poeta mergulhou direto no poema que procurava retratar, em poucas palavras, o quadro vivido por mim naquela noite do mês de Dezembro.

    Fui escrevendo e mais escrevendo percebendo que a Natureza parecia me entender e dava o seu recado de forma tão poética. Só fiz descrever o sentimento que invadiu minha alma durante aqueles minutos.

    Assim concluí a poesia a que dei o título de “Sereno”: “No silêncio desta noite chuvosa / Triste, onde insistes / Como que a tocar para mim.”

    Agora eu os convido a ler na íntegra o poema acima referido e prometo voltar no próximo mês destacando outros versos que escrevi em anos recentes.

    Francisco Simões. (Outubro / 2012)

    SERENO

    Sereno, serenata
    Molhada, ritmada,
    De gotas numa lata
    Abandonada,
    Esquecida no quintal.
    Não me soas mal.
    E eu aqui, esquecido,
    Deixado só
    Com este nó na garganta,
    Uma nostalgia que planta
    Uma dor no peito vazio,
    Um grito mudo, sofrido,
    Um tudo que se esvaiu
    Em saudade.
    Sereno, serenata
    De gotas numa lata,
    Te escuto, por minutos,
    Por horas, enfim,
    No silêncio desta noite chuvosa,
    Triste, onde insistes
    Como que a tocar para mim.

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    Por: Francisco Simões.
    Em: Dezembro / 2005.