Crônica
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    POETANDO NO SILÊNCIO


    Lendo o poema que hoje revivo para vocês, escrito em Outubro/2004, verão que foi quando eu já estava sobrevivendo numa solidão e numa saudade muito sofridas à época, fazia pouco mais de um ano.

    Eu jamais imaginara que um dia viveria tão só após quase 40 anos de uma união cuja felicidade superava os momentos difíceis que todos temos que enfrentar nesta vida. Afinal ela não é feita só de flores.

    Naqueles primeiros anos tive que entender e valorizar o silêncio que me cercava especialmente por tantas noites e madrugadas insones. A casa ficara grande demais, a cama também, e a saudade e o silêncio, além de meu lindo cachorrinho Touche, eram meus mais fiéis companheiros.

    Eu precisava sobreviver àquela situação, levar avante uma vida que eu não tinha o direito de encerrar antes do tempo que estaria determinado para mim, claro. Confesso que foi muito, muito difícil mesmo principalmente nos três a quatro primeiros anos. Quem já passou por isso sabe ao que me refiro.

    Dizem que nada melhor que o tempo para curar os males do amor, e aprendi na prática que é uma grande verdade. Os poucos amigos que me assistiam amenizavam como podiam aquela angústia, aquela dor, em momentos nos quais procuravam plantar alegria no meu coração.

    Algumas vezes, mesmo sorrindo, eu fraquejava. Não havia como esquecer e era também muito cedo para me reencontrar talvez com um novo caminho, com algo ou alguém a quem eu pudesse somar, completar, caminhar junto, voltar, quem sabe, a ser dois novamente. Afinal a vida prosseguia.

    Enquanto eu ia deixando a vida me levar, como disse o poeta popular, aos poucos fui descobrindo que nem tudo estava perdido para mim. Foi então que dei sentido, se posso dizer assim, a esses versos que eu havia escrito:

    “Cala-te coração / mas leva adiante / carrega contigo no peito / na alma, no olhar / num gesto mudo de vida / o que esta vida que fala / jamais compreenderá.”

    Eu percebia então que o muro do silêncio que eu mesmo havia construído em volta de mim estava chegando ao fim. Era hora de o pôr abaixo e deixar fluir meus sentimentos, libertar o meu coração já muito sofrido.

    Descobri naquele instante que nada nem ninguém poderia impedir-me de sonhar. Era hora de assumir que, na força da minha dor, era só meu um novo amor que chegava para conduzir-me no caminho de um novo viver.

    Entre o tempo em que escrevi o poema abaixo e esta minha nova atitude, havia decorrido cerca de dois anos, fora os outros dois já decorridos. Agora os convido a ler minha poesia e prometo voltar no próximo mês trazendo do baú mais um de meus poemas que nem todos conhecem.

    Francisco Simões. (Setembro/2012)

    MURO DO SILÊNCIO

    Cala-te coração,
    Eu te reprovo, te censuro.
    Não derrubes o muro
    Do silêncio,
    Disfarça a amargura,
    Num sorriso que não cura,
    Mas te fantasia de não.
    O sim não te traz proveito,
    Tem algo de proibido,
    Hostilizado no preconceito,
    Desrespeitado e invadido
    Na força da tua dor.
    É só teu este amor
    Então não te exponhas,
    Não renuncies, mas não deponhas,
    Pois não és réu, és amante.
    Cala-te coração,
    Mas leva adiante,
    Carrega contigo no peito,
    Na alma, no olhar,
    Num gesto mudo de vida,
    O que esta vida que fala
    Jamais compreenderá.
    Por favor, coração, te cala,
    Ninguém te impedirá de sonhar.
     

    Francisco Simões. (Outubro/2004)