Crônica
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    SALZBURGO NÃO FOI SÓ MOZART PARA MIM


    Numa de nossas quatro longas estadas na Europa entre os anos de 1989 e 1998 nas quais aproveitamos para conhecer bem não só países como seus povos, sua cultura, seus hábitos e costumes, nós visitamos um pouco da Áustria. Meu objetivo neste texto é mais contar um episódio ocorrido em Salzburgo, mas vamos devagar, passando antes por Viena e Innsbrug.

    Era nosso hábito fazer aquelas viagens sempre de trem, e de primeira classe. Já partíamos da capital portuguesa com as reservas de hotéis feitas em Agência de Turismo de pessoas amigas e com algumas passagens compradas.

    Saíamos de Lisboa de comboio para Madri. Lá permanecíamos uns três dias hospedados sempre no Hotel Mayorazgo, Calle Baja 3, bem no centro da cidade e próximo de tudo de melhor para caminharmos e visitarmos. Eu brincava com empregados da recepção dizendo que lá era “nossa casa em Madri”.

    Logo no dia seguinte, pela manhã, tratávamos de ir à RENFE onde fazíamos as reservas seguintes de comboio de nossa viagem por outros países. Sempre fui muito organizado e nunca tivemos problemas com essas marcações bem antecipadas.

    Eu levava plantas das várias cidades, e um livreto onde constavam os muitos deslocamentos de comboios, fosse de que país fosse para os demais. Ali possuíamos todos os dados, inclusive os horários que eram obedecidos com rigor. Nós tínhamos direito a primeira classe, pois levávamos uma espécie de passe que comprávamos ainda no Brasil, numa Agência de Turismo, em Ipanema.

    Eu traçava nosso roteiro fazendo as ligações entre cidades. Os hotéis eu escolhia de três estrelas e eventualmente de quatro. Assim conhecemos muito da Europa, embora não tudo, claro. Mas o que interessa aqui é dizer algo sobre a Áustria e em especial um fato meio surpreendente ocorrido em Salzburgo. Não vou me queixar do fato de, nos trens, eles darem informações pelo som ambiente apenas em austríaco. Surpreendeu-nos, já que passando por outros países sempre informavam também em inglês e francês, porém não atrapalhou em nada.

    Começamos a visita pela capital. Gostamos muito de Viena, embora nós tivéssemos chegado num tempo em que a principal avenida da cidade estava com muitas obras e no dia seguinte ainda choveu. Passeamos o que pudemos, adorei ver tanto verde dentro de uma cidade grande. Avenidas bem largas, e nós a caminhar e caminhar, como sempre fazíamos para conhecer tudo nos detalhes.

    No dia seguinte, em certa rua só de pedestres, também larga, vimos uma exposição de imensos cartazes que continham fotos em preto e branco. Percebemos que eram cenas da II Grande Guerra Mundial. A razão da exposição era para que ninguém esquecesse o que aconteceu e faixas pediam que aquilo nunca mais voltasse a se repetir. Lembravam também que Hitler nasceu na Áustria. Um exemplo a ser aplaudido. As pessoas paravam, olhavam, e ficavam a refletir.

    Após quatro dias de estada em Viena seguimos para Innsbruck. Ela é atravessada pelo rio Inn que lhe dá o nome, ou parte dele. É considerada a capital do Estado do Tirol. Do pouco que conhecemos de Innsbruck deu para sentirmos tratar-se de uma cidade de muitos encantos, com certeza. Também respiramos bastante de história e arte por suas ruas e museus. Ela fica rodeada pela beleza dos Alpes.

    Eu teria muito a dizer não só de belo sobre a Áustria em geral, como em particular sobre cidades como Innsbruck e Salzburgo. Assistir a eventuais concertos em praças públicas, aquela arquitetura que tanto admiro, o respeito à História, à Cultura de um povo, tudo isto me é mais importante do que ser um turista acidental. Assim prefiro caminhar, freqüentar lugares diversos, tentar conversar com pessoas locais, sentir seus costumes, me fazer alguém do país.

    Pelo título percebem que estou me dirigindo rumo a Salzburgo, onde conhecemos a Casa de Mozart transformada num lindo Museu. À entrada já se sente forte emoção. Salzburgo está localizada numa curva do rio Salzach que a banha. No centro da cidade, por trás da Casa de Mozart, vê-se o Mönchsberg. Trata-se de uma montanha que tem seu charme próprio, e fica bem no centro da cidade. Ali foram rodadas muitas das cenas do famoso filme “A Noviça Rebelde”.

    Salzburgo é considerada a quarta maior cidade da bela Áustria. Lindas Praças sempre com muito verde, jardins em profusão. Foi justamente na bonita Mirabel Platz que assistimos à cerimônia de um casamento ao ar livre.

    Conhecemos também o belo Teatro de Salzburgo onde ocorrem espetáculos e exibições de importantes Orquestras Sinfônicas. Ele se situa num largo bem perto do rio Salzach. Seu interior é algo indescritível de tão belo.

    Mas, vamos ao que lhes quero contar pelo inusitado do ocorrido. Nós entráramos num restaurante para almoçar. A garçonete, uma jovem austríaca, trouxe-me o cardápio e depois não só indiquei o que queríamos comer como confirmei para ela em inglês. Ela não sorria. Depois solicitei uma sobremesa, novamente me dirigindo a ela em inglês. Ela novamente entendeu e nos trouxe o que eu pedira.

    O inglês é idioma mais usado, até porque geralmente todos que nos atendiam conheciam a língua inglesa, estavam preparados para atender a turistas que não saberiam, naquele caso, falar no idioma deles. Ao final de tudo pedi a conta e a paguei à jovem na moeda local. Sempre foi costume meu levar dólares e os trocar pela moeda de cada país a ser visitado. Assim eu evitava um câmbio que normalmente nos sairia caro se feito em lojas ou restaurantes.

    Ao conferir o troco que a jovem me entregara reparei que havia uma diferença acentuada contra nós, claro. Chamei-a e tentei explicar o que se passava, novamente em inglês. A garçonete, que não sorria, fechou a cara e passava a impressão de não estar me entendendo. Insisti, mas ela fazia e conta que não compreendia. Eu me dirigi ao gerente e, mostrando a conta e o troco e dizendo quanto eu usara para pagá-la mostrei a diferença que eu reclamava.

    Ele conferiu tudo direitinho e me deu razão, falando em inglês. Pediu-me desculpas e, de imediato, repôs o que a jovem certamente surrupiara antecipado julgando que nós éramos um casal de turistas idiotas. Enganou-se. Enquanto saíamos reparei que o gerente conversava de forma nada amistosa com a jovem garçonete. Surpreendeu-me aquilo porque eu estava na Áustria e nunca antes, em lugar algum da Europa por onde nós havíamos passado algo assim nos acontecera.

    Aquilo foi um fato isolado que em nada diminuiu todo o encanto que a Áustria nos proporcionou, embora tivesse causado em nós certa decepção, sem dúvida. Mas, quem puder, eu sugiro que, indo à Europa, não deixe de visitar cidades austríacas. É um país encantador.


    Francisco Simões. (Maio/2011)