Crônica
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    NA CUMPLICIDADE DO SILÊNCIO E DO LUAR


    Foi no ano de 2000 que em certa noite, nem me perguntem a razão, de repente me veio a idéia de começar a escrever esses versos. Eu estava só no meu escritório em frente ao computador. Pela janela soprava uma brisa bem fresca.

    Na cabeça uma vontade danada de manifestar minha revolta, como outras vezes já acontecera, contra o comportamento humano nesta realidade que já vivíamos.

    A idéia do sapo como uma figura central do poema, ou seja, a figura que se contrapõe ao ser humano na poesia que eu estava escrevendo, veio quando, sentado e envolto em pensamentos, comecei a digitar no computador na minha casa do bairro do Braga, localizada em frente as dunas.

    Era noite, pensei que alguns deles deveriam estar naquele momento, numa noite fria e de lua cheia, desfrutando do silêncio, do luar e de sua liberdade.

    Consideramo-nos livres, porém, em verdade nós somos escravos de nossos sentimentos, incluídos aí nossas mágoas, nossa tristeza, desgostos, pressentimentos, etc. Perdemos parte de nosso viver afogando a felicidade, a alegria, nesses pesares.

    Igualmente me ocorreu naquele momento o fato que nossa civilização imuna a emoção, desumana o convívio, nos afastando cada vez mais de nossos semelhantes, nos tornando reclusos em nós mesmos, isolando-nos, em nosso mundo interior.

    Acirrei minha crítica nos versos da segunda estrofe deste poema e então surgiram em minha mente imagens que falavam por si só e eu as adotei no terceiro bloco de versos: “Estamos ficando enfermos / qual um roseiral apétalo / qual noite que esqueceu o orvalho / órfãos pensamentos acéfalos...”

    Amei ainda mais a inspiração do momento que a seguir me ofereceu essas imagens que davam continuidade ao que eu queria mesmo declarar: “Estamos deixando poluir-se o amor / esvaziar-se a ânsia do sonho impossível...” e por aí afora.

    Percebi então que o poema não podia ter outro título que não este “O Sapo e o Poeta”. A primeira pessoa que o leu certamente foi minha então esposa, a Zezé, e logo depois o mandei para minha boa amiga, hoje também minha webmaster, a Irene Serra.

    Irene leu e logo me disse que adorou não só a poesia como as imagens que criei para fazer minhas críticas e falar dos meus sentimentos. Ela sempre considerou esta poesia uma das que mais ela gosta de todas que escrevi. Um dia ela me disse: “Não me pergunte a razão, só sei que me encantei com esses versos e as imagens criadas.” Considerei-me premiado com aquelas palavras, vindas de quem vinha. Era o que eu tinha a dizer. Vejam as premiações deste poema e até o próximo mês:

    “POÉTICA 2001” – Recanto das Artes (Gesmil) – Sorocaba – Concurso dividido em 4 etapas. Na 1º meu poema O SAPO E O POETA foi selecionado; na 2º o selecionado foi ALELUIA; na 3º selecionaram o SORRISO BRASILEIRO; na 4º e última etapa o poema MEIA-NOITE obteve o 1º lugar do concurso.
    “VII CONCURSO INTERNACIONAL DE OUTONO, POESIAS, CRÔNICAS E CONTOS” – Arnaldo Giraldo (Santos SP) – Os poemas O SORRISO BRASILEIRO e O SAPO E O POETA foram classificados em 7º lugar. (Junho/2001)
    "II PRÊMIO NACIONAL DE POESIA E DESENHO Lília A. Pereira da Silva" – (Itapira SP) -- Pelo conjunto das poesias TEMPO DE CORVOS, SORRISO BRASILEIRO e O SAPO E O POETA, fui classificado em 1º lugar entre os 15 melhores poetas, num total de 603 poesias concorrentes. (Setembro/2001)

    O SAPO E O POETA

    Alguns gordos e felizes sapos
    Ainda batem longos, longos papos
    Nos seus lodosos e felizes charcos
    Marcos dessa civilização
    Que imuna a emoção,
    Que desumana o convívio.

    Tanto canto de sereia,
    Uma filáucia que se ateia
    Nas tribos, nos saraus, à mesa,
    Uma bazófia burguesa,
    Burgomestres emproados,
    Sabujos entronizados.

    Estamos ficando enfermos
    Qual um roseiral apétalo,
    Qual noite que esqueceu o orvalho,
    Órfãos pensamentos, acéfalos,
    Na ventura de virtual sermos
    Se virosos não tombarmos falhos.

    Estamos deixando poluir-se o amor,
    Esvaziar-se a ânsia do sonho impossível,
    Grassar a epidemia do torpor,
    Arder a brenha, esfumar as estrelas,
    Sobejar o medo, desalentar a paz,
    Fugir a vida ao escondê-la.

    Enquanto isso ainda há gordos sapos
    Que batem longos, longos papos,
    Que têm a noite, as estrelas, o tempo de amar
    Na cumplicidade do silêncio e do luar.
    Oh! Trevas, Oh! Bruxas, alerta:
    Transformem em sapo este poeta.

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    Autor: Francisco Simões
    Em: Agosto/2000
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    Francisco Simões. (maio/2012)