Crônica
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    TOUCHE, NOSSO AMIGO DE LONGA DATA


    Os que me lêem há uns oito anos conhecem a história deste lindo yorkshire que me foi dado de presente quando ele tinha apenas um mês de vida e eu oito meses de um sofrimento brabo dosado com uma solidão massacrante.

    Sempre o tratei com todo carinho. Os que não apreciam criar cães não vão entender este sentimento nem esta dedicação que algumas vezes me fez acordar de madrugada para ir ver o pequeno Touche, então uma bolinha de pêlos apenas, a chorar na parte de baixo da minha casa no bairro do Braga.

    Lena dedicava também a ele uma atenção toda especial e Touche ficava ansioso à espera dela, todo dia, pela manhã, quando ela ia lá cuidar da minha casa, de mim e do bravo cachorrinho, muito lindo.

    Depois de certa idade, ela ensinou-lhe como subir a escada para o andar de cima com total segurança. Saibam que ele nunca esqueceu e até hoje, se o levamos lá, ele sobe aquela escada do mesmo jeito aprendido em lições intermináveis patrocinadas por Lena de forma incansável.

    Durante longo tempo eu vivi naquela casa só com ele e tendo os cuidados de Lena durante parte do dia. À noite ele parecia entender minha dor na solidão e assim não se afastava aqui do amigo enquanto eu não fosse dormir. A cama me parecia então muito grande larga demais, e isso me fazia permanecer até de madrugada no computador sem coragem para ir dormir. Touche permanecia ao meu lado.

    Ele me olhava de uma forma que parecia querer dizer algo para me consolar. Assim foi durante alguns anos. O destino fez, muito tempo depois, que eu acabasse vindo morar, inicialmente como um inquilino privilegiado, na cada de Lena onde tempos depois, pelo casamento, acabei ficando como seu marido.

    A essa altura Touche já tinha uma filha que vive conosco, a querida Safira, hoje com seis anos. Em matéria de nossas amizades caninas temos aqui também a lady Coker, Tuane, com onze anos. Esta já era de Marlene há muito tempo. Algumas pessoas não conseguem entender nosso apego aos amigos caninos que são considerados irracionais, mas que sabem ser amigos, leais, fiéis, e têm certo sentido de pressentimento que nós humanos não possuímos. Acreditem.

    Os pequeninos yorkshires, como muita gente já me disse e nós temos comprovação disso, valem também como uma espécie de “cães de guarda” que, se não têm o tamanho necessário para tal função de defesa por outro lado são sempre os primeiros a nos alertar sobre a presença de alguém, ou na porta da rua, ou entrando em casa, ainda que conhecido. Eles latem antes que a campainha toque.

    O sentido de pressentimento deles pode ser considerado como um sentimento intuitivo, em certas ocasiões. Há especialistas que afirmam terem eles uma apurada e desenvolvida visão que os humanos não têm. Quando eu morava no Braga, algumas vezes cheguei a ficar todo arrepiado com a reação de Touche olhando fixo para uma direção, no escuro, a rosnar como se quisesse dizer que algo estava ali, porém meus olhos nada viam.

    Voltando ao nosso querido Touche, hoje com oito anos, ficamos muito tristes quando descobrimos que ele se mostrava enfraquecido, rejeitando comida, se encolhendo pelos cantos e nem latia em situações que antes sempre o fazia. Assustamo-nos e nos decepcionamos ao ver que o médico que dele cuidava desde que nascera agora não conseguia acertar com a doença que o afligia.

    Seguindo o conselho de duas pessoas amigas que também se dedicam a cuidar de cães com todo amor, Lena decidiu que era urgente ouvirmos outra opinião sobre o que se passava com ele. Mesmo estando cheia de tarefas a cumprir ligou para o outro veterinário. Este ia ter que sair por volta do meio-dia para fazer uma cirurgia. Já eram quase onze horas.

    A obra que a Prefeitura realiza em nossa rua continuava a nos impedir de sairmos com nosso carro. Rápido, Lena telefonou para um de nossos cunhados que se encontra de férias. Este veio até aqui e a levou ao médico junto com Touchesinho. Ele pesava então somente 2 quilos e meio e se percebia fácil os seus ossos.

    Antes de Lena sair nos juntamos com Touche, no colo dela, falamos com ele e choramos junto, os dois, prometendo que faríamos tudo para salvá-lo. A idéia de perdê-lo nos desesperava. Alguns não entendem isso, pois só consideram importantes para si seres humanos. Eles não são “apenas uns cães”, não, valem muito mais para quem os sabe amar tendo neles a fidelidade que tantos seres racionais, ditos amigos, não nos dedicam.

    O médico o atendeu mesmo após o horário, dedicou-lhe toda atenção e até fez um exame de sangue de imediato. O resultado foi mesmo alarmante. Vejam só um resumo das conclusões médicas:

    ANEMIA NORMOCÍTICA NORMOCRÔMICA; COM DNNE DISCRETO;
    LINFOPENIA RELATIVA; MONOCITOPENIA RELATIVA E ABSOLUTA;
    EOSINOPENIA REL E ABSOL; HIPOPROTEINEMIA.

    Não entendemos como isto pode estar acontecendo com ele quando Touche circula mais aqui dentro de casa, na casa da mãe de Lena, aos fundos, e pelo nosso quintal e garage. São os mesmos locais por onde anda a Safirinha, filha dele, que nada tem.

    Tuane sempre foi acostumada a permanecer do lado de fora da casa, circula somente nos espaços externos, ou quintal, garagem e varandas. Dorme na garage, na bonita casa dela. Tuane estaria mais exposta, porém jamais ficou doente.

    Touche está devidamente medicado, Lena é quem aplica tanto o antibiótico quanto outro remédio, ambos a cada 12 horas. Após uns dias sem querer comer nada, agora Touche se alimenta, demonstra sentir fome e come com prazer.

    Vejam que este médico autorizou, especialmente nos primeiros dias quando ele vinha recusando a ração, a que Lena lhe desse um pouco de carne desfiada de frango cozido com arroz e mesmo fígado. Tudo que o médico anterior proibira!!

    É visível como o bom amigo agora volta a circular entre os vários espaços com certa desenvoltura. Até já tem latido, meio rouco, mas dá sinais de retorno à vida. É cedo para comemorarmos, mas estamos na torcida “Força Touche” e não desistiremos jamais de o ver totalmente recuperado para a alegria e felicidade de todos cá de casa. Não há quem não ame nosso yorkshire.

    Um chiste, porém que faz certo sentido: quem não quiser ajudar que pelo menos leve seu “mau olhado” para outras plagas. Como dizem nossos netos: “Sai ziguizira”. Avante Touche, nós o amamos e precisamos de você ainda por um bom tempo. Não é uma “corrente”, mas quem puder que se junte a nós em pensamento.


    Francisco Simões. (Março/2012)