Crônica
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    VISITA DA ESPERANÇA


    Algumas vezes já escrevi descrevendo nossa pacífica convivência com a Natureza que nos rodeia por aqui. Já falei muito de passarinhos, alguns que entram, passeiam e saem quando bem entendem de fazê-lo, nunca os agredimos.

    Já fotografei ninhos, passarinhos recém nascidos, algumas cenas de pais e/ou mães tentando ensinar seus filhotes a voar, algo indescritível. Eles parece se sentirem bem à vontade não se incomodando nem um pouco com a nossa presença.

    Outro dia houve um pássaro que simplesmente dormiu aqui em casa. Passeou como quis, voou para todos os lados e à noite ainda cá estava. Antes de irmos dormir, Lena cuidou de colocar água e comida sobre a mureta divisória da cozinha para o caso dele precisar se alimentar ou sentir sede.

    Na manhã seguinte ele estava sobre um dos ventiladores de teto da sala. Pouco tempo depois, sem se despedir, ele apenas voltou ao seu habitat. Assim tem sido este nosso convívio com a amiga Natureza.

    Já falei e até mostrei fotos da “sociedade” de Lena com ela pelas árvores frutíferas que de quando em vez nos presenteiam com bananas, acerolas, mangas, laranjas, etc, sem falar na bonita e grande horta que Lena agora incrementou ainda mais. Esta nos dá em troca alimentos saudáveis, sem agrotóxicos. Parentes e vizinhos mais chegados costumam usufruir também do sucesso deste plantio cuidadoso.

    Outro dia, entretanto, a amigável natura nos pregou uma surpresa maravilhosa. Para alguns talvez o fato que descreverei certamente represente pouco ou quase nada, mas para nós gerou uma grande alegria.

    Eu escrevia no computador e como estava muito calor tratei de colocar um ventilador bem velhinho, que já me foi muito útil no passado, na minha casa do Braga, ali perto de mim, pois o do teto não me alcança aqui.

    De repente, ao olhar para o lado direito percebi que sobre o pequeno ventilador estava pousada uma esperança. Ela parecia bem à vontade e nem se importou com a curiosidade de nossa querida Safira, a filha do Touche, que se aproximou, mas apenas a olhou e saiu de perto. Era por volta das nove e meia da manhã.

    Se considerarmos a descrição técnica do dicionário, baseada na zoologia, sobre aquele simpático bichinho parece que estamos falando de algo, digamos meio “monstruoso”. Vejam o que retirei do meu Aurélio: “Inseto ortóptero, tetigonióideo, de antena setácea, geralmente mais longa que o corpo, pernas espinhosas, e ovipositor ensiforme. Tem, de ordinário, cor verde.”

    Pois o nosso bravo “ovipositor ensiforme” resolveu não apenas passar por aqui, mas, como se costuma dizer no popular, “esqueceu das horas”. Foi ficando, foi ficando, e eu gostando. Ele estava a cerca de apenas um metro de mim. A visão dele me agradava. De quando em vez a esperança se mexia um pouquinho e mudava de posição, porém permaneceu ali por horas.

    Nós almoçamos, tivemos a visita do filho de Lena com a esposa, muita conversa rolando por aqui, televisão ligada, os cachorros latindo quando a campainha da porta tocava e a esperança ignorava tudo. Parecia estar bem zen, ou num estado de contemplação intuitiva, ou algo parecido.

    Peguei a câmera e fiz três fotos das quais escolhi duas para acompanhar este texto. Ela nem se assustou com o flash, estava mesmo zen, zen. E as horas foram avançando, o sol já sumira no horizonte, a noite assinou o ponto e se estabeleceu por aqui. A Esperança mudava um pouco de posição, mas continuava ali.

    Foi quando Lena me disse que pretendia, antes de irmos dormir, colocá-la de volta à Natureza. E não me opus. Assistimos à TV até perto das 22 horas e como a Esperança permanecesse sobre o pequeno ventilador de chão, Marlene a pegou carinhosamente, sem a machucar e a levou para o jardim.

    Soltou-a perto de um pé de jiló. Pois bem, a “ovipositor ensiforme” voou só um pouquinho e logo pousou ali mesmo, no pé de jiló. Demos boa noite a ela e fomos nos deitar. A noite estava fresca, porém sem chuva.

    Na manhã seguinte tive a curiosidade de procurá-la no jardim. Caminhei devagar e cuidadosamente entre nossas plantas, todavia não a vi mais. Alguns supersticiosos logo diriam, como nós também pensamos, que ela devia ter trazido boas notícias para nós.

    O fato é que aquilo ocorreu em dias de ansiedade por aqui visto que a mãe de Lena, que mora conosco, tivera um enfarte uns quatro dias antes. Estamos confiantes na recuperação dela não obstante os exames e as recomendações do cardiologista.

    Fé nós temos até demais, e a esperança aumentou com a presença daquele inseto vestido todo de verde, a cor que traduz este sentimento. Só nos resta aguardar os próximos dias e/ou semanas.


    Francisco Simões (Dezembro/2011)