Crônica
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    UMA PALAVRA ANTES DO TEXTO


    Gente amiga, a cada Dezembro eu escrevo e divulgo texto quando mando meus votos de Feliz Ano Novo a todos os amigos. Nos textos incluo outros comentários e, nesses anos todos, já foram dez, sendo que alguns acabam ficando parecidos com outros embora uns poucos tomem rumo diferente nas palavras.

    Este ano decidi não escrever texto novo e sim repassar para vocês o que eu divulguei em Dezembro/2002, ou há nove anos. Razão: gosto muito da mensagem que nele coloquei, foi bem abrangente, ela continua atual e casos ali contados hoje se repetem com mais freqüência e com toque de crueldade bem maior.

    Por outro lado muitos dos que agora me lêem, apóiam meu trabalho, não o conhecem, e aqueles que à época o leram provavelmente nem se lembram de sua mensagem. Pode ser bom reler. Por isso achei de escrever este encaminhamento antes da reapresentação da crônica: “FELIZ ANO NOVO?!” Boa leitura.

    Francisco Simões. (Dezembro/2011)

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    FELIZ ANO NOVO ?!

    Aproxima-se o momento de enviarmos nossos votos de Feliz Ano Novo a pessoas queridas. É um ato que se repete anualmente, mas que se torna indispensável, pois com ele, reverenciamos, ao tempo em que saudamos aqueles e aquelas que estão permanentemente em nossas mentes e nossos corações. Porém, paro e inicio minhas reflexões antes de enviar meus votos.

    Por que a reflexão? Porque eu gostaria de poder não levar este anseio, estes votos, apenas aos que me são caros, àqueles com os quais convivo. Tenho uma visão mais ampla na qual incluo toda a humanidade. Não fazer isso é manifestar votos de uma forma seletiva, deixando de fora tantos que também são filhos de Deus, sejam ou não cristãos, ou mesmo agnósticos.

    Sabemos que essas discriminações, odientas, enquanto forem alimentadas por pessoas, povos, ou governos, jamais permitirão que sejam criadas as condições necessárias para que tenhamos uma sociedade universal sem os imensos desníveis sociais que impedem que todos sejam realmente felizes e que haja uma paz duradoura, não pelas armas, não pela força, mas pelo entendimento, pelo respeito às diferenças e às leis.

    Ao mesmo tempo, entretanto, reflito e me pergunto: como desejar um Feliz Ano Novo àquele senhor, avô da jovem, de classe média alta, a qual arquitetou e participou, de alguma forma, do assassinato, com requintes de imensa crueldade, dos seus próprios pais? O mesmo exemplo ocorreu nos EUA, há alguns meses, onde dois meninos, um de 11 e o outro de 13 anos assassinaram também o próprio pai. Motivo: este os repreendera por terem ido à casa de um vizinho com o qual ele não se dava bem!

    Como desejar um Feliz Ano Novo àquela senhora que matou o próprio filho, em meados de novembro, seguindo uma certa rotina macabra, assustadora, de outros pais denunciados, de quando em vez, por tortura, maus tratos e mesmo assassinatos de seus filhos, alguns desses de tão pouca idade, que mais lúgubres, mais medonhos e desumanos se tornam seus gestos? Enganam-se os que pensam que esses casos são meras exceções. Com a divulgação deles, agora surgem vários outros, antes silenciados no medo da denúncia.

    Como desejar um Feliz Ano Novo a traficantes, estupradores, criminosos, que nos intimidam, nos aterrorizam, nos acuam num medo gigantesco, nos tiram o sagrado direito de ir e vir e, portanto, até de viver? Mesmo sendo cristão, como estender-lhes esses meus votos se amanhã a vítima de seus perversos instintos posso ser eu, minha família ou alguns de meus melhores amigos?

    Como desejar um Feliz Ano Novo aos corruptos e corruptores, aos fraudadores que lesam o bem público impunemente, aos que usam a toga com parcialidade, aos legisladores insensíveis a urgentemente necessária reforma de nossas leis, aos políticos de visão estreita, egoísta, onde seus interesses e uma boa dose de cobiça é que inspiram suas atitudes, suas decisões?

    Como desejar um Feliz Ano Novo a dezenas de milhões de brasileiros e brasileiras que sobrevivem milagrosamente abaixo da linha da miséria para os quais o tudo se resume ao nada que o destino, com uma boa ajuda da sociedade e de impiedosos e insensíveis governantes, lhes impõem? Que diferença faz para eles o ano entrante se as únicas certezas que lhes restam são a fome, as doenças, enfim, a morte?

    Como desejar um Feliz Ano Novo aos líderes mundiais que, insensatamente decidem colocar o Poder acima do Direito, das Leis? Como desejar felicidade a quem usou, e pretende reutilizar a força, premeditadamente, para levar a infelicidade, o infortúnio, a desgraça, a mais gente inocente, qualquer que seja o seu credo, que não participou, nem participa, de hediondos crimes praticados pelo terror?

    Esses governos se valem oficialmente do mesmo método do terror para alcançar seus objetivos, impondo intimidação, medo, promovendo guerras, substituindo a diplomacia e o direito internacional pela força, excluindo o diálogo, o entendimento, talvez porque lhes faltem argumentos racionais e/ou justos, já que sua agressividade se assenta, invariavelmente, em intrujices.

    Fica difícil, não é verdade? Só não fica se formos hipócritas o suficiente para discriminarmos quem deva viver e quem deva morrer. Alguns estão se sentindo e se colocando na posição de Deus. Tomam em suas mãos o acusar, o julgar, o condenar e o executar a sentença que melhor atende aos seus interesses. Esses geralmente são escusos e se acobertam em grandes mentiras, imposturas, às quais outros se curvam, também por interesses exclusivistas, jamais universais.

    Como durante este ano de 2002 nada foi feito para mudar a direção de nossa realidade, para minimizar tanta desgraça, tanto ódio, tanto sofrimento, cabe perfeitamente aqui eu reprisar alguns versos do meu poema “Excelência” que escrevi em janeiro / 2001:

    “Cada ano novo tão velho e reprisado / quando falseiam anseios replantados / quando a ilusão como milagre é anunciada / pelo mentir repetitivo e consagrado / pelo deboche de sorrisos masturbados / na prepotência infiel e imunizada / de mãos que assinam e rasgam compromissos / de olhos com antolhos que enxergam só por cima / dos ombros, dos problemas, da penúria, da fome / de bocas sem nome, da dor que se aclima.”

    Recordo também, por mais do que oportuno, um pensamento atribuído a Albert Schweitzer, sobre o qual devemos refletir muito: “Vivemos numa época perigosa. O homem dominou a natureza antes que tenha aprendido a dominar-se a si mesmo”.

    Jamais eu poderia também desejar um Feliz Ano Novo aos que se aprazem em executar atos de terrorismo na injustificável defesa de causas que, se eventualmente até podem ser classificadas como justas, não devem, em hipótese alguma, servir de apoio para atitudes covardes e criminosas de pessoas ou grupos.

    O uso sistemático do terror, qualquer que seja a sua motivação, só merece a condenação geral. Não é o caminho mais apropriado para se tentar corrigir injustiças sociais ou defender causas com inspiração na história de povos, de nações, casos da Chechênia, em relação à Rússia, dos bascos em relação ao governo central de Espanha, entre muitos outros.

    No caso dos chechenos, é notório que a intransigência russa em recusar sistematicamente sua independência tem a mesma causa que leva, por exemplo, os EUA e alguns de seus aliados, a atacar e a influenciar na composição dos governos do Afeganistão e agora do Iraque. O que mais se diga em outro sentido é pura hipocrisia.

    Isto tudo me leva a relembrar mais um trecho do meu poema “Excelência” que no ano de 2001 ganhou o primeiro lugar no Concurso Nacional de Poesias da AABB – Lagoa, no Rio de Janeiro:

    “E ainda me exigem “tolerância , por favor”, / Enquanto a ganância e o desamor / Limpam suas botas em meu jardim, na sua flor, / Nos limites do mundo e da decência / Onde a inclemência insiste em se impor / Sem pudor, sem pejo, sem indulgência. / Excelência, a vida clama por amor.”

    Apesar dos pesares, acredito ainda no ser humano e creio que nunca devemos trocar o amor pelo ódio, a confiança pelo desânimo, o respeito pela intimidação, o sonho por uma promessa vã, a tolerância pela hostilidade, a compaixão pelo escárnio, o duradouro pelo efêmero, a concórdia pela violência ou a vida pela morte. Um dia ainda aprenderemos a viver e deixar viver sem que a violência e o desamor tenham que estar permanentemente na relação entre povos, entre nações, entre pessoas.

    Para você que me dá o prazer e a honra de sua atenção, lendo-me, meus sinceros votos de um FELIZ ANO NOVO, amigo ou amiga, extensivos a sua família.


    Francisco Simões (Dezembro/2002)