Crônica
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    VOCÊ ASSISTE AO PROGRAMA DO RATINHO?


    Só ao ler este título acredito que muitos já devem ter torcido o nariz. Alguns devem estar imaginando “que baixaria”, ou então , “poxa, que decepção, o Simões assiste ao Ratinho?” Pois lhes digo que vão se surpreender com o que lhes contarei aqui e agora. Mas leiam, por favor.

    Ontem à noite eu acompanhava Lena assistindo parte da novela da Globo, das 21 hs., e de quando em vez corríamos alguns canais. Fazemos isto praticamente todas as noites. Ao passarmos pelo SBT estava lá o Programa do Ratinho. Sorte nossa termos passado por aquele canal. Sabem quem estava no programa dele?

    Pois eu lhes digo, nada mais nada menos que o Senhor Superação, o magnífico pianista e Maestro João Carlos Martins que todos admiram. Paramos e nem voltamos pra novela. Ratinho dizia de sua admiração pelo Maestro e pianista e comentava que após vê-lo em tantas entrevistas, como no JÔ Soares, na Hebe e outras mais, sempre pensou que jamais conseguiria levá-lo ao seu programa.

    João Martins sorriu e disse que só não comparecera antes devido a tantos compromissos, pois só em concertos ele estivera regendo orquestras em 180, este ano, fora as apresentações beneficentes e outras. Viagens também muitas. Martins afirmou mais uma vez que o povo gosta de música clássica, o que precisa é se lhe dar oportunidade de a ouvir, o que no Brasil ainda pouco é feito.

    Balbuciou os primeiros acordes de certa música composta há mais de 200 anos e garantiu antes que a platéia iria se identificar e cantar o resto. E não deu outra, amigos e amigas. Quando ele parou todos continuaram a cantarolar a referida composição. Martins estava alegre, como sempre, solto, parecia muito à vontade. Levou alguns músicos da orquestra e foi identificando e ensinando as semelhanças entre cada instrumento. A platéia aplaudia e Ratinho estava sinceramente feliz e emocionado. Martins contou histórias de sua vida que eu nunca ouvira antes.

    Falou que quando percebeu que sua mão direita não tinha mais jeito, por ser um homem de fé, que acredita num Ser Superior, primeiro se dirigiu a certo padre. Este o abençoou, mas o milagre que Martins esperava não aconteceu. Sorrindo disse que ou não havia milagres disponíveis ou ele não era merecedor. Depois procurou um Pai de Santo que alguém recomendara a ele.

    Após benzê-lo e à sua mão direita, aquele lhe garantiu que em menos de um ano sua mão direita estaria igual à mão esquerda. Sorrindo Martins mostrou que foi verdade, pois a mão esquerda também acabou defeituosa, assim como a direita já estava. Todos riram. O clima estava ótimo. Ele regeu seus músicos executando algumas partituras sempre com a vibração de uma platéia acostumada a outros tipos de shows.

    Curiosamente Martins contou um episódio que vivera quando foi se apresentar num país de língua espanhola, não muito longe daqui. O motorista do taxi sugeriu a ele que se não tinha ainda hotel ficasse hospedado num Motel de primeira linha, muito visitado, que o motorista chamou (e Martins antes de dizer o nome pediu desculpas ao Ratinho e à platéia) de “Casa de Las Putas”. Ele resolveu arriscar, segundo afirmou, e disse ter gostado da hospitalidade. Aos que lhe perguntavam onde estava ele dizia que em casa de parentes. Teria familiares vivendo ali.

    No dia de sua apresentação no Grande Teatro, Martins recebera alguns convites para seus “familiares”. Entregou-os as suas novas amigas. Mal começava a reger a orquestra quando escutou aquele grito cheio de entusiasmo: “Dá-lhe Juanito...” No camarote estavam não apenas quatro, mas quinze moças. Todos riram do episódio numa descontração muito própria do Maestro erudito que não é dado a preconceitos.

    Conversa vai, conversa vem, de repente num palco anexo, do lado direito, abriram-se as cortinas e apareceu, tocando com toda força, a bateria da Escola de Samba Vai Vai, de S. Paulo. A mesma que homenageara o Maestro ano passado tendo ele regido, em pleno desfile, tanto a Bateria como alguns músicos da Orquestra Sinfônica que o acompanharam.

    A vibração do público chegou ao auge. Ratinho, sem poder esconder sua felicidade, não sabia o que fazer. Foi quando o Maestro João Martins acenou para os músicos clássicos que começaram também a tocar junto com a Bateria. Podem me chamar de bobo, mas confesso que me emocionei. Lena também. O público em silêncio ouvia um autêntico concerto “clássico-popular”.

    Imagino quantos que conheço e admiram e respeitam o Maestro João Carlos Martins perderam nova oportunidade de o ver em ação, sempre alegre, a contar histórias de sua vida, a reger o clássico e o popular, a contagiar o público, seja ele qualquer for, com seu talento e sua admirável lição de Superação. Imagino quantos não passaram por lá porque jamais devem pôr a TV em canais como o do SBT num horário daqueles.

    Nós o fazemos algumas vezes por mera curiosidade, não custa nada, e assim algumas vezes descobrimos verdadeiras jóias como foi o caso da entrevista e apresentação do nosso bravo Maestro João Carlos Martins. Nós iríamos lamentar muito se soubéssemos que teríamos perdido algo tão lindo e valioso.

    E já assistimos a inúmeras entrevistas do Homem Superação, mas nunca nos cansamos de vê-las. Se nos consideramos pessoas de bom gosto e por isso evitamos o que a TV costuma ter de pior, por outro lado nenhum tipo de preconceito nos impede de satisfazer esta curiosidade de sairmos procurando algo diferente nos variados canais, até mesmo internacionais.

    Quem não assistiu perdeu mais uma oportunidade de ver em ação um dos homens que mais admiro, que mais aplaudo, que é mesmo uma lição de vida para tantos que desistem de tudo por tão pouco. Falei e disse.


    Francisco Simões. (22/Novembro/2011)