Crônica
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    RAÇA, UMA QUESTÃO DE OPINIÃO?


    Não faz muito tempo eu escrevi e divulguei mais uma vez um texto no qual eu me referia a preconceito. Falava sobre os seres humanos e suas posturas ante seus semelhantes quando estes são diferentes deles seja na cor da pela, na preferência sexual, na religião, etc.

    A certa altura eu citei o que me escrevera meu bom amigo Otávio Macedo, gente da melhor qualidade com quem me correspondo habitualmente neste universo de amigos que tenho por aqui, embora nossa amizade tenha começado há décadas. Ele foi meu vizinho em Ipanema e até Síndico do prédio em que eu morava e ainda tenho apartamento lá.

    O que disse o Otávio? Pois aqui vai: “Simões, negro não é cor é raça.” Com esta assertiva ele me apoiava em determinado argumento do texto que eu escrevera antes. Por outro lado eu concordei com ele, não em troca de “favores”, mas por uma convicção minha. Não pretendia que todos que me lessem concordassem com aquela opinião, pelo contrário, sempre aceito democraticamente a crítica discordante, desde que bem fundamentada, educada e não agressiva.

    Entretanto alguém que conheci nesta internet faz pouco tempo, que também escreve, é pessoa culta, inteligente, e divulga seus escritos num blog pessoal, ao comentar meu texto “entrou de sola”, como se diz na gíria, usando mal, no meu entender, do direito que tinha, e que tem, à crítica do meu trabalho.

    Ele não apenas discordou da afirmação do amigo Otávio, que eu apoiara, como disse que considera só existir uma raça, a raça humana. Deu a entender que o resto soa como preconceito. Até aí, embora eu também discordasse do meu recente amigo, ele estava exercendo um direito inalienável, o que, todavia não me roubava o direito a uma contra argumentação, que fiz, justificando minha posição.

    Mas a partir daí recebi outra mensagem na qual ficava claro que ele não admitia o debate, o diálogo, entre pessoas com opinião diferente da dele, e pronto. Foi taxativo, me deixando decepcionado, e nunca mais me escreveu. Já estou começando a ficar calejado com pessoas que se apresentam como amigos neste espaço virtual e de repente nos apagam de sua lista pelos motivos mais fúteis.

    Resolvi um dia comentar o assunto com outro amigo, este da antiga do BB, amigo de décadas, também culto, inteligente e com quem até já escrevi crônicas a quatro mãos. Repassei para ele nosso “diálogo” e insinuei que gostaria de ter sua opinião. Então o Manuel dos Santos me escreveu e eu colocarei aqui, com autorização dele, algumas coisas que me disse sobre o assunto em questão:

    “Simões, às vezes a dificuldade está na definição ou no conceito das coisas. E haja discussão infindável! Porque envolve valores e preconceitos sedimentados desde a infância, difíceis de modificar ou eliminar.”

    “Há pessoas que se recusam a dividir o ser humano em "raça negra", "raça branca", "raça vermelha" ou "raça amarela". Para elas, existe só a "raça humana". Os indivíduos são diferentes entre si, claro: uns são altos, outros baixos; têm narizes, bocas e orelhas de formatos diferentes; seus cabelos e olhos são de cores várias; e as peles têm tonalidades que vão do branco quase transparente, ao negro quase absoluto. E daí? Daí são todos seres que, com a miscigenação livre, dão origem a outros seres, com novas cores e novos formatos. Tudo gente!”

    “Eu estou nesse time. O preconceito racial não acabará enquanto se falar dele. Temos de passar a olhar a pessoa como pessoa.”

    “Mas a referência à cor do indivíduo pode ser utilizada para, por exemplo, identificá-lo/destacá-lo num grupo.
    - olha aquela mulher loura, à direita;
    - foi aquele homem baixo que fez tal coisa;
    - aquela mulata jovem é realmente bonita;
    - o negro alto e falante é um campeão.
    Isto não é preconceito.”

    “Lembro-me da historia de uma menina que brigou na escola porque os amiguinhos, brancos, disseram-lhe que o pai dela era preto. E ela não aceitava. Quando chegou a casa, perguntou ao seu pai, negro: - pai, você é preto?”

    “Vês: a menina não percebia a cor da pele do pai (não o via como negro); mas, ao mesmo tempo, tinha na memória o preconceito de que ser "preto" não é bom. E por isso reagiu contra os colegas.”

    Aí está uma opinião bem fundamentada, sincera por convicção, que explicita e não agride, que argumenta sem radicalismo. Aliás, se formos aos melhores dicionários (eu uso o Aurélio, mas tenho também o Houaiss) veremos definições como as que copiei e colocarei aqui embaixo:

    “Raça - Conjunto de indivíduos cujos caracteres somáticos, tais como a cor da pele, a conformação do crânio e do rosto, o tipo de cabelo, etc., são semelhantes e se transmitem por hereditariedade, embora variem de indivíduo para indivíduo.”
    “Restr. Antrop. Cada uma das grandes subdivisões da espécie humana, e que supostamente constitui uma unidade relativamente separada e distinta, com características biológicas e organização genética próprias.”

    Observem que ele usa a expressão “espécie humana”, não “raça humana”. O Dicionário Houaiss nos apresenta as mesmas definições que o Aurélio. Em ambos, todavia há uma observação que diz isto: --“Etnologicamente, a noção de raça é rejeitada por se considerar a proximidade cultural de maior relevância do que o fator racial.”

    Esta observação, no meu entender, salvo melhor juízo, não invalida as afirmações de ambos os dicionários que reproduzi ali em cima. Pra encerrar este assunto deixo-lhe, caro leitor, uma pergunta: Os seres humanos são divididos em raças ou raça é uma questão de opinião? – Aguardarei sua resposta.

    Francisco Simões. (Novembro/2011)