Crônica
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    OS PERSONAGENS DO POEMA “É NATAL”


    Os que me conhecem bem sabem que não sou daqueles que fazem muita festa durante o Natal. Vejo pessoas que a cada ano escrevem nova poesia sobre a época natalina, eu não consigo e confesso que nem me proponho a isso também, embora não tenha nada contra quem o faz. Desde que escrevi o poema “É Natal” para mim eu já dissera tudo que deveria ou poderia cantar em versos sobre aquela fase do ano. Minha opinião.

    Foi em Dezembro/1998 que me ocorreu a idéia de usar três personagens muito constantes que nós víamos ali na Praça N. Senhora da Paz, em Ipanema, onde morávamos, descrevendo-os nas figuras de Jesus, Maria e José. Era fácil de perceber que eles, um homem, uma mulher e um menino, vivendo à margem da sociedade, não cabiam no “nosso Natal”. Em sua pressa habitual, a maioria dos transeuntes sequer percebia a presença deles.

    O homem perambulava por ali com um olhar perdido num horizonte que somente ele devia ver. Não incomodava ninguém, mas acredito que muitos se incomodavam com a presença dele. As pessoas se dizem solidárias, se dizem cristãs, mas infelizmente nem sempre agem como professam ser. Pelo menos em muitas delas, era fácil perceber a indiferença no olhar e no evitar permitir que ele as abordasse. Eu o chamei na minha história natalina, em versos, de José.

    “O Zé lá da Praça, que fala sozinho ou fala com os anjos, que fala baixinho e sorri pra menina, um anjo que passa que não fala com o Zé. A praça limita seus passos, mas não seus pensamentos”... Este era o meu personagem José. Eu o eternizei na minha modesta poesia. A outra personagem era Maria. Você algum dia a viu?

    “... Maria, da porta da Igreja, está ali todo dia, mas talvez só Deus a veja... Plantam-se ceias nas mesas, ouvem-se coros, orquestras, mas Maria não tem mesa. Maria nem tem janela, só tem a porta da Igreja e uma natalina certeza de que a noite que agora boceja vai dormir sem lhe trazer festa.” - Hoje ela não está mais lá.

    Naquele poema meu terceiro personagem foi Jesus “menino, 10 anos, ele não tem segredos, apenas certezas miúdas, e muitas mágoas graúdas que esmagam a criança e constroem sua cruz... Nas mãos de Jesus uma lata, onde cabe o seu espaço, onde fecha o seu destino.” A verdade é que ele ainda hoje povoa a cidade entre tantos outros “Jesus”, entre tantos outros contrários melhor bafejados pela vida, pelo destino, meninos que nunca serão “crucificados”.

    O poema “É Natal” ganhou o excelente prêmio de “Melhor Crítica Social” por duas vezes, tanto na quarta como na sexta edição do Concurso Literário EXPRESSÃO DA ALMA, no Rio de Janeiro, coordenado por Luiz Márquez. Foi também colocado em destaque na Antologia do Concurso Literário do Movimento Mirinha, no Rio Grande do Sul, em novembro/2000.

    Provavelmente não obteve mais premiações face ao impedimento que passou a vigorar nos concursos para não se inscrever trabalhos que não fossem inéditos, ou que já tivessem participado de outros certames. Uma exigência da qual sempre discordei, mas respeito.

    Aos amigos que me acompanham há mais tempo desejo que releiam este poema, e aos que pouco conhecem da minha produção em poesia, apresento-lhes o poema “É Natal”. Até a próxima.

    É NATAL

    É Natal,
    Mas talvez nem todos saibam,
    Talvez porque não caibam
    No Natal.

    Seu nome é José,
    Ele não tem Maria
    Já teve um dia
    Hoje é só o Zé.
    O Zé lá da praça
    Que fala sozinho
    Ou fala com os anjos,
    Que fala baixinho
    E sorri pra menina
    Um anjo que passa
    Que não fala com o Zé.
    Ninguém sabe quem é,
    As flores, o vento,
    Os grãos de areia
    Entendem José.
    Os pássaros também.
    A praça limita seus passos
    Mas não seus pensamentos.
    Sua mente alceia, alceia,
    E passeia muito além.
    Ninguém conhece o José,
    José não conhece Belém.
    A árvore de Natal na praça
    Para José não passa
    De uma alegria iluminada
    Que pisca e pisca pra ele,
    Que pisca e pisca, mais nada.

    Seu nome é Maria
    Da porta da igreja,
    Está ali todo dia,
    Talvez só Deus a veja.
    A igreja é de Deus.
    Ela ouviu a história
    Dos bondosos Reis Magos.
    Eles passam pra lá,
    Eles passam pra cá,
    Sem mirra, incenso ou ouro.
    Para ela são Reis Magos
    Que não lhe dão afagos,
    Que não lhe dão presentes.
    Nada ouvem por mais que peça
    Pois, toda aquela gente
    Leva nos pés muita pressa.
    Sem pressa tocam os sinos
    O seu anúncio etéreo:
    “Nasceu o Deus-Menino”.
    Plantam-se ceias nas mesas,
    Ouvem-se coros, orquestras,
    Mas Maria não tem mesa,
    Maria nem tem janela
    Só tem a porta da igreja
    E uma natalina certeza
    De que a noite que agora boceja
    Vai dormir sem lhe trazer festa.

    Seu nome é Jesus,
    Jesus, menino, 10 anos.
    Ele não tem segredos
    Apenas certezas miúdas
    E muitas mágoas graúdas
    Que esmagam a criança
    E constroem sua cruz.
    A boca gelada de silêncio,
    Silêncio que grita mais alto
    Que a voz das passeatas,
    Que esconde o seu medo.
    Escolaridade: mendicância.
    Ele povoa a cidade
    Entre tantos Jesus,
    Entre tantos contrários,
    Sem manjedoura, sem berçário,
    Carregando sua fragilidade
    Sem cobrar o que a vida
    Há muito lhe deve: a infância.
    Jesus, 10 anos, menino,
    Por ele passam os sonhos
    De tantos que levam planos
    Na cabeça, nos passos,
    No olhar, no sobressalto.
    Nas mãos de Jesus uma lata
    Onde cabe o seu espaço,
    Onde fecha o seu destino.

    É Natal
    Mas eles não sabem,
    Talvez porque não cabem
    No nosso Feliz Natal.

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    Autor: FRANCISCO SIMÕES
    Em: Dezembro / 1998


    Francisco Simões. (Novembro/2011)