Crônica
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    QUE AMOR É ESSE?


    Outro dia eu e Lena fomos convidados pelo filho dela para irmos assistir, no bonito Teatro Municipal aqui de Cabo Frio, a uma peça teatral entremeada com danças clássicas e populares, filmes, e alguns cantores. Todos os integrantes do grupo eram da Igreja que ele freqüenta com a esposa.

    Logo imaginei que iria assistir a algo montado para propaganda religiosa da referida Igreja, pois mesmo me considerando cristão, não gosto de certas exibições, algumas pendendo para o exagero seja de que manifestação religiosa for. Não foi cobrado ingresso, deveríamos levar mantimentos que se destinariam às famílias carentes. Surpreendi-me com a quantidade de pessoas que já aguardavam na fila.

    Fomos à primeira sessão, das 19:30. Haveria outra às 21:30. O Teatro ficou superlotado. Ao sairmos havia novamente uma multidão aguardando a sessão seguinte. Vou tentar ser o mais conciso que eu puder sem deixar de lhes dar uma idéia da linha mestra que prevaleceu naquela peça teatral.

    Quando as luzes se apagaram logo o som entrou forte com alguns jovens, rapazes e moças, dançando uma espécie de balé meio clássico meio popular. No telão eram projetados simultaneamente cenas de um filme que me causou imensa surpresa. Tratava-se da película sobre a vida de Cristo, mas não o tradicional filme hollywodiano que tanto a TV exibe, porém o filme produzido por Mel Gibson.

    Lembram que ele foi execrado especialmente por muitos católicos e pelo Vaticano porque o consideravam um filme muito violento e talvez fora do contexto? As cenas passavam rápidas e o som era muito forte, assim como o filme. Se me surpreendi, por outro lado comecei gostando. De repente tudo pára e a cortina se fecha. Neste momento acontece algo inusitado.

    Um cidadão alto e forte salta da platéia para o palco e, falando alto, esbraveja contra tudo que acabáramos de ver. Comportando-se como um ateu convicto critica a juventude bonitinha que acabara de dançar e fala das cenas do filme mostrando sua descrença no tal “filho de Deus” que na película era torturado, enxovalhado pelas pessoas e depois morto na cruz. Riu e afirmou diversas vezes que ele não acreditava em nada daquilo. Lamentou quererem nos fazer crer na existência de um Deus que nem o seu Filho soube proteger. Disse que a realidade a nossa volta prova que tudo é bem diferente. Sua fala foi longa e sempre descrente.

    A seguir as luzes se apagam, as cortinas reabrem e entram outros personagens simbolizando um menor abandonado, um mendigo, entre outros excluídos da sociedade, enquanto no telão entravam cenas de guerra, bombardeios, crianças morrendo de fome, enfim muita violência deste mundo real. Súbito, do fundo do palco surge uma mulher fugindo de um assaltante que grita: “Perdeu, mulher, perdeu, passa tudo pra cá.” Como ela reage, ele atira três vezes e ela cai.

    O som era muito alto e forte, e os tiros foram colocados justo no som ambiente, parecendo então três estouros de granada causando ainda mais impressão em todos. Fica difícil eu descrever todos os quadros, pois as imagens se embaralham em minha mente. Sei que o cidadão ateu volta algumas vezes sempre criticando religião, tentarem nos impor um Deus Salvador no qual ele jamais acreditou, mas a partir de certo momento ele aparece acompanhado do que deveria ser um anjo que tenta convencê-lo do contrário que ele prega com muito rigor. O personagem não se entrega e debate muitas vezes com o anjo, este se mostrando doce, afável.

    Em certos quadros entra alguém, ora homem ora mulher, a cantar músicas do estilo gospel. O espetáculo vai seguindo e confesso que prendendo minha atenção. Mais pra frente o personagem ateu, já cansado da insistência do anjo em convencê-lo do que ele se recusava a crer, aceita, entretanto um convite daquele para, digamos, fazendo uma viagem no tempo, voltar à época em que Cristo teria vivido na Terra. O anjo propõe que ele testemunhe o que teria ocorrido.

    No quadro seguinte, vários atores e atrizes representam cenas da tortura daquele que seria o Filho de Deus, espancando-o enquanto outros se põem a gritar, xingando o tal Salvador que nem a ele mesmo se salva. É quando, mais para frente,
    aparecem no palco personagens vestidos pobremente enquanto um outro, muito bem vestido, representando certamente o poder político, o poder econômico que temos aí, faz escárnio, mostra desdém pelos abandonados da sorte, faz apologia do ser “experto”, insinua a corrupção como sucesso de vida, e ri dos que tentam viver no bem, sendo honestos e dignos. Também critica quem pratica religião, e tal como o outro, o ateu, põe em dúvida a existência de Deus, etc.

    A ele se juntam, em movimentos de dança, alguns que representavam o mal, o mal do mundo, o mal com o qual convivemos diariamente, que nos persegue, que mata, que rouba, que tortura, que sufoca, que nos massacra sem piedade. O mal que está no cerne dessa sociedade global em que estamos incluídos. Eles, sempre em forma de dança, enaltecem com gestos o tal homem que representa também o conchavo, a propina, o jeton, etc, e ridicularizam os que tentam praticar o bem.

    De repente, sob um forte ruído de passos firmes, surgem pela direita do palco vindo dos bastidores, elementos de branco, certamente representando o bem, que enfrentam os do mal. Sim, amigos e amigas, porque neste mundo o bem ainda resiste apesar de tudo, ora perde, ora ganha, tentando se impor. Na seqüência da cena o mal termina derrotado e as cortinas se fecham. Entendi e aplaudi.

    O personagem ateu, descrente de tudo, elemento central e elo de ligação dos quadros, retorna agora confuso, pois percebe que talvez estivesse errado. É como se estivesse vendo e entendendo melhor a verdade. Ele se converte, digamos assim. Eu já esperava por isso, porém entendo e aceito visto tratar-se, no cerne do espetáculo, de uma visão religiosa do mundo. O último quadro apresenta todos os atores e atrizes vestidos de branco, tendo ao centro uma pequena carruagem com um personagem sorridente, que a meu ver poderia significar a representação do Bem como Verdade, ou de um Deus em que muitos crêem.

    Quem me conhece bem sabe que não sou ateu e jamais o seria, mas hoje acredito mais num Ser Superior que dirige tudo, ao qual prefiro não atribuir qualquer nome, e que deve estar na Natureza. Sei que não estou só nesta visão, até porque filósofos como Heráclito e Spinoza diziam a mesma coisa. Quando me refiro à Natureza, incluo não apenas este pequenino e ínfimo planeta, que é nossa linda Terra, mas considero todo um infinito que abriga talvez bilhões ou trilhões de planetas, estrelas, sistemas solares,
    galáxias, etc. O Universo em que estamos incluídos.

    Não consigo aceitar que o tal Ser Superior, que admitamos chamar de Deus, possa se preocupar apenas com este pequeno grão de areia, diante da magnitude do infinito. Desculpem, mas não tem como. Até porque acredito que possa haver vida, sim, em outro, ou outros, lugares do universo. Por que não? É minha opinião nesta longa vida, hoje aos 75 anos de idade.

    Voltando à peça teatral, realmente ela me surpreendeu, e para melhor, pois procurou exibir, mostrar aquilo que muitos preferem ignorar, a realidade cruel, violenta, criminosa, desigual, onde muitos que se declaram cristãos costumam agir ou sobreviver à custa da vida ou do sacrifício de tantos sem voz, sem espaço, na sociedade. Este é o nosso mundo que, de óculos escuros, muitos vivem a pintar de cor-de-rosa. Parabéns aos produtores do espetáculo pela coragem de não mascararem nada em nome de sua religião.

    Em nenhum momento foi feito qualquer tipo de propaganda em favor da referida Igreja. Nem citada ela foi. Se propaganda houve foi sim em favor da vida, do amor, da paz, tudo com o que nós sonhamos sempre e sempre. Até o nome do espetáculo foi muito apropriado e nos deixa uma pergunta que, de certa forma, nos questiona, faz velada denúncia, e nos põe uma reflexão: “QUE AMOR É ESSE?”. Responda você se for capaz.


    Francisco Simões. (Outubro/2011)