Crônica
fm.simoes@terra.com.br
  • Poemas
  • Crônicas
  • Biografia
  • Fotos
  • Prêmios
  • Produção e Administração

     

    SAUDADES DO POETINHA


    A Vida é a Arte do Encontro. Escreveu nosso saudoso Vinicius de Moraes na letra do seu “Samba da Bênção”. Outro dia eu o ouvi na rádio MPB – FM, disparada a melhor emissora para quem gosta de música popular brasileira da melhor qualidade. Depois ouvi novamente por um cd que tenho e que junta Vinicius, Jobim, Toquinho, entre outros.

    Saibam que foi esta a primeira música em que Vinicius teve como parceiro um jovem que mais tarde teria o reconhecimento internacional: Baden Powell.

    Mas, eu volto ao começo para perguntar: A Vida ainda é a Arte do Encontro? Acredito que sim, mesmo neste mundo enlouquecido onde o que mais se vê nos leva a pensar que hoje a vida seria, não uma Arte, mas a tragédia dos desencontros, estes, acontecendo pelos motivos mais fúteis, mais banais, sem mergulhar nos meandros de uma realidade em que a violência tende a predominar fora e dentro dos lares.

    Vamos seguir na letra daquela canção, mais pra frente, e no que o saudoso poetinha foi dizendo, expressando pensamentos e sentimentos: “Fazer samba não é contar piada / E quem faz samba assim não é de nada / O bom samba é uma forma de oração / Porque o samba é a tristeza que balança / E a tristeza tem sempre uma esperança / A tristeza tem sempre uma esperança / De um dia não ser mais triste não.”

    Se Vinicius estivesse ainda entre nós e visse o que andam a fazer com a música, dita brasileira, dita popular, dita até patrimônio cultural, algumas chegando às raias de “universitária”, talvez ele morresse, mas de desgosto. Tem gente por aí que não sabe fazer poesia e nem mesmo piada, conforme a letra da música do poetinha, e se você critica será chamado de... preconceituoso!!

    Mais adiante, falando, na letra do “Samba da Bênção”, ele diz, como se estivesse adivinhando o que vinha pela frente: “Feito essa gente que anda por aí / Brincando com a vida / Cuidado, companheiro! /A vida é pra valer...”

    No que ele diz “brincando com a vida”, provavelmente talvez já pensasse em que alguns ensaiavam também em “brincar com o samba”... Pois é, a vida é pra valer e o samba é coisa séria, muito séria. Não havendo competência o jeito é recorrer à apelação, e isso, meus amigos, é o que vemos muito hoje em dia. Não só apelam como vulgarizam (ou abandalham) o que merece ser respeitado: a nossa MPB.

    Na seqüência da letra falada, Vinicius expressa seu pensamento sobre a morte. Com leve toque de humor, sem perder uma certa fleugma do brilhante poeta e diplomata que era, ele fala: “A vida é pra valer / E não se engane não, tem uma só / Duas mesmo que é bom / Ninguém vai me dizer que tem / Sem provar muito bem provado / Com certidão passada em cartório do céu / E assinado embaixo: Deus / E com firma reconhecida!”

    Confesso que embora goste demais de tudo que Vinicius compôs e escreveu, na letra desta canção, ora falada, ora cantada, eu aplaudo tudo, porém me permitam salientar mais um pequeno trecho da parte cantada onde ele reafirma o que sempre disse, “sou o branco mais preto do Brasil”: “Porque o samba nasceu lá na Bahia / E se hoje ele é branco na poesia / Se hoje ele é branco na poesia / Ele é negro demais no coração.”

    Mais para o final da letra falada, Vinicius relaciona uma série de agradecimentos, humildemente pedindo a bênção, a Caymmi, João Gilberto, Sinhô, Cartola, Ismael Silva, Heitor dos Prazeres, Nelson Cavaquinho, Geraldo Pereira, Cyro Monteiro, Nonô, Ary Barroso, e a todos os grandes sambistas do Brasil, ou como ele diz... “a todos brancos, pretos, mulatos, lindos como a pele macia de Oxum”.

    A veia do poeta falou mais alto quando ele pediu a bênção a um outro mestre da MPB. Disse Vinicius: “A bênção, Pixinguinha / Tu que choraste na flauta / Todas as minhas mágoas de amor”.

    Vamos fechar este passeio pela letra de o “Samba da Bênção” recordando os primeiros versos escritos pelo poetinha: “É melhor ser alegre que ser triste / Alegria é a melhor coisa que existe / É assim como a luz no coração / Mas pra fazer um samba com beleza / É preciso um bocado de tristeza / É preciso um bocado de tristeza /
    Senão, não se faz um samba não.”

    Mas a letra contém ainda mais mensagens que poderão ser lidas, e a canção, ouvida, na voz de Maria Bethânia, se você entrar por este link: http://letras.terra.com.br/vinicius-de-moraes/86496/

    Saravá, Mestre Vinicius de Moraes.


    Francisco Simões. (junho/2011)