Crônica
fm.simoes@terra.com.br
  • Poemas
  • Crônicas
  • Biografia
  • Fotos
  • Prêmios
  • Produção e Administração

     

    MAIS UM NATAL


    Gente amiga, quem me conhece há mais tempo sabe que não sou de escrever sobre a época natalina. Mesmo assim já divulguei, nesses 10 anos, uns 3 ou 4 textos abordando a temática do Natal. Em versos, costumo dizer que depois que escrevi o poema “É Natal”, em Dezembro/1998, sempre achei que minha visão sobre o assunto se esgotara ali.

    Aquela poesia mereceu alguns bons prêmios quando eu participava de Concursos Literários, e cada vez que a releio percebo que dificilmente escreverei algo novo, ou diferente, dentro do tema. Mesmo assim, em Dezembro/2005 ousei escrever o poema “O Natal Deles”. Expressei mais uma vez a minha visão social do Natal.

    Não tem jeito, não consigo escrever palavras bonitas, cantar louvores, e mais, as músicas natalinas, confesso, de certa forma me deprimem, enquanto a outros alegram tanto. Nada tenho contra as comemorações, e até participo da que fazem aqui em casa, respeitando sempre os sentimentos de meus familiares.

    Assim, peço vênia aos amigos e amigas para apresentar, a muitos que chegaram depois e não devem conhecer meu poema, os versos do “É Natal”. Nele falo de José, Maria e Jesus, porém como pessoas comuns, à margem de uma sociedade que finge não vê-los, que lhes vira as costas, ou que os evita.

    Cristãos que, com certeza, ao ver, quem sabe, um novo Cristo andando pelas ruas, com as vestes de antes, e a pedir paz e justiça social, não hesitariam em chamar a polícia. A história se repetiria.

    É NATAL

    É Natal,
    Mas talvez nem todos saibam,
    Talvez porque não caibam
    No Natal.

    Seu nome é José,
    Ele não tem Maria
    Já teve um dia
    Hoje é só o Zé.
    O Zé lá da praça
    Que fala sozinho
    Ou fala com os anjos,
    Que fala baixinho
    E sorri pra menina
    Um anjo que passa
    Que não fala com o Zé.
    Ninguém sabe quem é,
    As flores, o vento,
    Os grãos de areia
    Entendem José.
    Os pássaros também.
    A praça limita seus passos
    Mas não seus pensamentos.
    Sua mente alceia, alceia,
    E passeia muito além.
    Ninguém conhece o José,
    José não conhece Belém.
    A árvore de Natal na praça
    Para José não passa
    De uma alegria iluminada
    Que pisca e pisca pra ele,
    Que pisca e pisca, mais nada.

    Seu nome é Maria
    Da porta da igreja,
    Está ali todo dia,
    Talvez só Deus a veja.
    A igreja é de Deus.
    Ela ouviu a história
    Dos bondosos Reis Magos.
    Eles passam pra lá,
    Eles passam pra cá,
    Sem mirra, incenso ou ouro.
    Para ela são Reis Magos
    Que não lhe dão afagos,
    Que não lhe dão presentes.
    Nada ouvem por mais que peça
    Pois, toda aquela gente
    Leva nos pés muita pressa.
    Sem pressa tocam os sinos
    O seu anúncio etéreo:
    “Nasceu o Deus-Menino”.
    Plantam-se ceias nas mesas,
    Ouvem-se coros, orquestras,
    Mas Maria não tem mesa,
    Maria nem tem janela
    Só tem a porta da igreja
    E uma natalina certeza
    De que a noite que agora boceja
    Vai dormir sem lhe trazer festa.

    Seu nome é Jesus,
    Jesus, menino, 10 anos.
    Ele não tem segredos
    Apenas certezas miúdas
    E muitas mágoas graúdas
    Que esmagam a criança
    E constroem sua cruz.
    A boca gelada de silêncio,
    Silêncio que grita mais alto
    Que a voz das passeatas,
    Que esconde o seu medo.
    Escolaridade: mendicância.
    Ele povoa a cidade
    Entre tantos Jesus,
    Entre tantos contrários,
    Sem mangedoura, sem berçário,
    Carregando sua fragilidade
    Sem cobrar o que a vida
    Há muito lhe deve: a infância.
    Jesus, 10 anos, menino,
    Por ele passam os sonhos
    De tantos que levam planos
    Na cabeça, nos passos,
    No olhar, no sobressalto.
    Nas mãos de Jesus uma lata
    Onde cabe o seu espaço,
    Onde fecha o seu destino.

    É Natal
    Mas eles não sabem,
    Talvez porque não cabem
    No nosso Feliz Natal.

    ...........................................................
    (Esta poesia ganhou o prêmio de Melhor Crítica Social na 4ª e na 6ª edições do Concurso “Expressão da Alma”, no Rio de Janeiro, além de diversos outros prêmios importantes em vários concursos literários)
    ..........................................................

    Francisco Simões (Dezembro/2010)