Crônica
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    O PERDÃO QUE EU NUNCA TE PEDI


    Nós éramos jovens, ainda muito jovens. Eu tinha entre 20 e 21 anos e tu pouco menos. Após alguns namoricos meus, tu foste, em verdade, minha primeira namorada a sério, como se dizia. Estávamos, se não me engano, pelo ano de 1957.

    Já namorávamos por alguns anos e tudo levava a crer que um dia casaríamos. Nossas famílias também pensavam assim. Todas as noites eu te visitava na casa dos teus pais, era uma rotina que eu cumpria com muito prazer. Eras dona do meu coração e sabias disto.

    Lembras dos versos que eu escrevi, muitos sonetos, dedicados a ti? Outro dia os reencontrei num velho caderno onde os guardava e que minha saudosa madrinha Carmita conservou com carinho. Ela também fazia muito gosto que nós, algum dia, formássemos um casal, algo do tipo “almas gêmeas”. Tu, que eras minha musa, sempre elogiaste meus modestos versos porque os lias com os olhos do teu coração apaixonado. Eu fingia que acreditava e assim não parava de os escrever.

    O tempo foi passando, e um belo dia me falaste que percebias algo diferente em mim, no meu jeito de ser contigo. Estavas preocupada. Eu sempre desmenti, falava que estavas enganada. Mentira, Gracinha, este jovem, que tanto te amara por anos seguidos, de repente se deixara como que enfeitiçar por outra jovem.

    Eu trabalhava no rádio, no caso, na PRC-5, quando conheci aquela moça alta, também bonita, como tu, que chegara de S. Paulo, após uma experiência de radio atriz por lá. Poderia ter sido apenas uma aventura, como no começo achei que seria, mesmo a tendo convidado para participar comigo de um programa que eu estava criando e que logo a seguir foi ao ar na mesma emissora.

    Como sabes, eu lia a crônica diária, ali pelas dezoito horas, e no minuto seguinte logo começava minha nova produção. Não era novela, não, mas uma espécie de histórias que contávamos e interpretávamos, eu e ela, apenas nós dois, a cada programa que acontecia duas vezes por semana.

    O ensaiar junto, trabalhar junto, trocar idéias junto, nos aproximou demais, certamente mais do que eu pretendia inicialmente. Juro que nunca tive a intenção de te substituir no meu coração, quando muito curtir uma aventura que não criasse raízes, até porque essas tu já as plantaras em mim fazia muito tempo.

    Mas me enganei. No fundo a convivência freqüente que criamos por força do trabalho acabou por nos envolver em algo que ultrapassou uma simples amizade. Quando dei por mim havia já um envolvimento sentimental que antes eu não queria, é verdade, eu não queria mesmo. Depois fui covarde, fui fraco.

    Lembras do nome do programa que criei e apresentei com ela? Pois eu te digo: “Duas Vidas, Dois Destinos.” Todas as histórias que iam ao ar mostravam sempre esta sina mal traçada entre um homem e uma mulher. A verdade é que, se no programa aquilo era ficção, na vida real foi o que acabou acontecendo conosco. Uma união equivocada, um falso amor movido mais a desejo. Durou só três anos.

    Retorno àquela terrível noite, em 1957, quando te falei que estava ali para terminar o nosso longo namoro. Empalideceste, já receavas isto, mas mantinhas a esperança de que eu jamais te abandonasse. Eu fui cruel, muito cruel, reconheço. Nem sei mesmo te dizer como consegui fazer aquilo.

    Lembro que tu choravas, te agarravas a mim, só pedias que eu me desse um tempo, que refletisse melhor, quem sabe eu mudaria de decisão? Eu estava mesmo disposto a não recuar. Recordo que saí te deixando em prantos cometendo talvez uma das maiores injustiças da minha vida.


    Certo dia encontrei com tua irmã na rua, a Ivete, e ela me fez um apelo para que eu retornasse a casa de teus pais para falar contigo. Falou-me que tu estavas inconsolável. Eu concordei e fui até lá naquela noite em que te encontrei febril, muito abatida, fato que me deixou muito triste. Infelizmente nem assim eu mudei de opinião e mesmo conversando amigavelmente contigo não reatei o namoro.

    Saí de tua casa também aos prantos. Algo ainda apelava dentro do meu coração para eu voltar a quem fora realmente meu primeiro e grande amor. Andei a esmo, meus pensamentos estavam confusos, meu coração acelerado, busquei afogar minhas mágoas num bar. Bebi como nunca antes o fizera.

    Acabei, tempos depois, consumando o que jamais deveria ter começado: casei com a outra. Quando despertei do erro já era tarde. Nossa união se arrastou por quase três anos. Não tive um só dia de paz e de felicidade naquele tempo. Há coisas que tenho que guardar comigo, para sempre. Só te posso dizer que paguei, e paguei bem caro pelo que fiz a ti. A vida me cobrou alto e só não naufraguei no desencanto, sobrevivendo numa solidão que me doía na alma, aqui no Rio de Janeiro, graças a uns poucos amigos que me assistiam sempre que podiam.

    Penei por um bom tempo vivendo só e em quartos que alugava em casa de estranhos. Só mais pra frente quis a vida atenuar meu sofrimento e me apresentou Zezé. Foi meu segundo casamento e consegui ser feliz por quase quarenta anos. Uma doença terrível me devolveu ao sofrimento por um ano e meio e depois a uma nova solidão de alguns anos.

    Eu estava só, novamente, a partir de junho/2003. Quando a saudade de Zezé mais me apertava o peito, eu também lembrava de ti. Parecia que eu ainda não pagara tudo que te fizera de ruim na juventude. Mais alguns anos, já aos 72 de vida, decidi recomeçar tudo outra vez. Casei com Marlene, minha esposa atual que conhece toda a minha história de vida. Era nossa amiga fazia já uns 20 anos.

    Nunca mais tive notícias tuas, Gracinha, apenas soubera que casaras com antigo amigo nosso, também do rádio paraense, e que estavas feliz. Parece que vives atualmente no Maranhão, mas isto não importa. Minha consciência ainda me cobra até hoje o que neste momento pretendo fazer.

    Graciete, onde estiveres, espero que desfrutando de uma imensa felicidade, recebas agora... o perdão que eu nunca te pedi.


    Francisco Simões (Novembro/2010)