Crônica
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    GRANDES FARSAS DA HISTÓRIA II


    Hoje vou lhes contar, ou lembrar, outra grande farsa que aconteceu na disputa para o Governo do Estado do Rio de Janeiro no ano de 1982. Os concorrentes eram o Sr. Leonel Brizola, pelo PDT, Moreira Franco, pelo PDS, Miro Teixeira, PMDB, Sandra Cavalcanti, PTB e Lisâneas Maciel, PT.

    Abro um rápido parêntesis para dizer que conheci Miro na Av. Visconde de Pirajá, em Ipanema, numa tarde em que passava ali uma passeata tendo ele como figura de destaque. Me aproximei e o chamei. Ele foi educado e atencioso. Conversamos um pouco e fiquei com ótima impressão do Miro. Votei nele.

    Após a votação, que naquele tempo ainda era feita usando-se cédulas de papel, teve início a apuração. Distribuídos por várias mesas os apuradores contavam e anotavam cada voto. Havia sempre fiscais de todos os partidos que acompanhavam bem de perto este processo. Era um trabalho muito longo e cansativo.

    Os jornais, emissoras de rádio e TV, tinham também suas equipes de reportagem lá presentes e que iam passando os números da apuração para serem informados ao público. A certa altura percebeu-se que todos os órgãos da mídia, com exceção de um, informavam que o Sr. Briloza liderava a apuração. Somente as Organizações Globo, através da TV e do jornal, colocavam Moreira Franco na liderança. Miro Teixeira era o terceiro ou quarto colocado.

    Aquilo pareceu muito estranho e logo muitas suspeitas foram levantadas. Como um só órgão da mídia, acompanhando tal qual os demais a mesma apuração, poderia ter informações tão diametralmente opostas? Um cidadão que era muito conhecido na época por participar do movimento musical da MPB, o Carlos Imperial, atuava como fiscal do PDT junto à apuração.

    Certo dia ele veio a público e fez denúncia: “A Globo estaria manipulando os resultados tentando levar o Moreira Franco à vitória na mão grande.” Ora, Imperial não era uma pessoa que merecesse muito crédito face a também, segundo alguns diziam, algumas vezes se apropriar de letras de terceiros usando-as como suas e assim ganhando os direitos autorais sobre elas.

    Mas outros passaram a fazer as mesmas denúncias e a Globo insistia em manter as informações diferenciadas dos demais órgãos da mídia. Conversa vai, conversa vem, um dia o candidato Miro Teixeira, em quem eu votara, convocou toda a imprensa para dar uma coletiva. Assisti a tudo pela TV.

    Miro disse que por informações de seus fiscais sabia que não teria chances de vitória. Agradeceu a todos que nele votaram, porém pediu mais um tempo para fazer uma séria denúncia. Miro Teixeira, jovem entrando na carreira política, teve a coragem de dar a cara à tapa contra a fortíssima Organização da mídia.

    Afirmou que seus fiscais lhe garantiram estar o Sr. Leonel Brizola liderando a apuração dos votos, e que, portanto o que saía na Globo era falso. Disse não entender aquela postura de um órgão tão importante de informação.

    Todavia estava já na cara que realmente era um “esquema” com tramas internas no âmbito da apuração, para derrubar a candidatura de Brizola que estava vitoriosa. A Globo jamais o tolerou. Naquela noite o Sr. Cid Moreira leu um editorial da empresa no Jornal Nacional tentando explicar o inexplicável, ou justificar o injustificável. Claro que Cid apenas cumpria ordens.

    O fato é que a partir dali as informações da Globo mostravam uma tendência a ir cada dia mais reduzindo a diferença entre os dois candidatos, mas mantendo Moreira à frente. Chegou uma hora em que tiveram que inverter e assumir o que todo mundo já sabia ser verdade: Brizola era o vitorioso.

    Alguns perguntariam por que contei, ou relembrei esta farsa agora? Respondo: no momento presente em que decorre uma disputa presidencial muitos da mídia têm se queixado de tentativas de “censura”, outros fazem um grande estardalhaço pela internet com denúncias que nunca apresentam provas, porém não se pode negar raras evidências, ou tentativas, nesse sentido.

    Emissoras de Tv, jornais, inúmeros colunistas, têm manifestado seu receio de uma confirmação de regulação da mídia na qual, sinceramente, eu não creio. Todavia, esses mesmos senhores fazem uma defesa da mesma mídia como se fossem todos “santinhos”, digamos que, imparciais. Na verdade todos sabemos que nenhum jornal, nenhuma revista, ou emissora de Tv, neste país, tem deixado de assumir que tem o seu, ou a sua candidata preferida. Todos, sem distinção. Uns assumem e o dizem com todas as letras, outros apenas camuflam.

    É evidente que nada justifica censura, ou tentativa de, jamais eu aprovaria isto. O ideal era que a imprensa se mantivesse neutra, porém sem jamais abrir mão do sagrado direito não só de informar como de investigar. Fui claro? Quanto ao Governo, que parasse de fazer ameaças à mídia. Infelizmente não se tem conseguido nem uma coisa nem outra.

    Quando decidi relembrar o caso que narrei acima, pretendi provar a que ponto pode chegar o poder deste ou daquele Órgão de nossa mídia. Aquele episódio me faz hoje lembrar um magnífico filme, com Dustin Hoffman, a que assistia há anos atrás. Refiro-me à película “O Quarto Poder”.

    O produtor é o excelente Costa Gravas. O “Quarto Poder” é um filme que nos faz refletir sobre o papel e o poder de influência da imprensa sobre a formação de opinião e imagem. O filme critica ainda, de forma geral, a falta de ética de parte da imprensa quando esta manipula os fatos.

    Eu sugiro que procurem ver este filme e depois também o outro que versa igualmente sobre a manipulação do expectador passivo, e que tem a ver com a Rede Globo, intitulado, “Muito Além do Cidadão Kane”. Este é um documentário.


    Francisco Simões. (Outubro/2010)