Crônica
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    NÃO SOU PETISTA, MAS NÃO SOU BURRO


    Amigos, baixarias da pior espécie, em época de eleição presidencial, não são novidades, pois elas já acontecem desde a primeira eleição direta, pós ditadura, na qual o Collor se elegeu. O que me entristece é que vivemos a repetir atitudes e gestos reprováveis, e hoje com mais vigor via internet.

    Quando imagino que vamos evoluir o que vejo, o que leio neste espaço virtual, costuma ser mesmo desanimador. Ater-me-ei apenas a mensagens que circulam aqui mesmo, nesta internet. Mensagens que espero terminem após as eleições.

    O que deveria ser uma competição, opiniões para um lado e para o outro, governo versus oposição, assim eu entendo, virou já de há muito uma espécie de guerra. Pior é que neste embate muitos estão a sair feridos e algumas amizades chegam a ser desfeitas. Nem se trata de pensar contrário ao que seu amigo defende, não.

    Se alguém lhe envia supostas denúncias, acusações totalmente absurdas, já cansativamente desmentidas, seja contra que candidato for, e você faz ver ao seu amigo a irresponsabilidade de estar a repassar o que não corresponde à verdade, o mínimo que recebe são palavras como essas que nos fazem desanimar: “Olha, pra mim tanto faz que seja verdade ou não, o que me interessa é atacar fulano.”

    Em outras ocasiões o amigo remetente já lhe olha atravessado e num raciocínio meio insano e injusto, se põe logo a pensar, por exemplo, “não é que ele virou petista?” Pior, a partir daí começa um relacionamento movido a certa desconfiança quando você apenas o quis alertar sobre o que fizera de errado.

    Outras vezes nos remetem artigos, crônicas variadas, mas eu, pelo menos, só as tenho recebido com críticas, as mais severas, à candidata do PT. Tudo bem, nem é novidade já que o governo Lula deu muitos motivos, e parece continua a dar, para tanta crítica. Eu mesmo tenho escrito sobre isso, só que me atenho às verdades, não invento suspeitas descabidas porque respeito, ao escrever, o que se chama ética.

    Por outro lado, além de eu não me pôr a fazer propaganda de quem quer que seja, parece que cometo o “crime” de ver, e dizer, que temos uma oposição incompetente, desorganizada, com um candidato que já perdeu duas vezes para o Lula e agora caminha para uma derrota mais fragorosa para a candidata do PT. E ela nem carisma tem, nem preparo me parece ter para tanto prestígio em termos de votos expressados nas pesquisas.

    Eu vejo nos 52% de votos atribuídos a Dilma uma espécie de aprovação de muitos ao governo que aí está. Por mais que alguns possam discordar, como eu discordo, de que mereça tanto. Estranho, porém que sendo S. Paulo o maior colégio eleitoral do país e Serra seu governador até agora não consiga o dito cujo uma votação mais expressiva. E olhem que os tucanos estão lá no poder há 16 anos.

    Outro dia um amigo se afastou de mim porque, embora eu dissesse que concordava com as críticas que fazia ao atual governo, ousei alertá-lo para o fato de, ao final de sua mensagem, distribuída na internet, estivesse a defender a ditadura e seus métodos, além de lamentar (ele) “que algumas pessoas tivessem escapado da degola promovida durante aquele regime”.

    A seguir a resposta dele não deixou dúvidas que não mais me escreveria e ainda afirmou que lamentava não saber que eu era um “socialista”(!!). Meu Deus, que democrata é este que sequer admite discordâncias num diálogo? Que democrata é este que não sabe conviver com os diferentes, mesmo eu jamais tenha sido socialista ou comunista? Eu o tinha em alta conta há alguns anos, mas o perdi a primeira vez que discordamos em algo. Sei que ele vai ler este artigo.

    Por razões idênticas tive eu que retirar do meu catálogo e bloquear um certo senhor, que se anuncia sempre como poeta, porém que cansou de me remeter mensagens onde pregava (e deve continuar a fazê-lo) os tais métodos da referida ditadura. Chegou certa vez a dizer, que mesmo odiando os comunistas, julga que a China faz muito bem em prender e matar em vez de perder tempo com processos!!

    Entre as muitas barbaridades que cansei de receber dele, estavam também pregações contra todas as pessoas (repito, todas, sem exceção) que defendem os direitos humanos. Mais grave, que me fez explodir de vez, foi quando ele desrespeitou grosseira e injustamente a saudosa D. Zilda Arns. Para ele oposição é isto, para mim é diálogo, debate, troca de opiniões, sem os excessos que ele defende.

    Amigos, neste nível em que andam a escrever nesta internet, e a estabelecer também níveis diferenciados de amizade, outro dia recebi de um amigo, ao encaminhar algo por sua lista, este realce em letras maiores: “Aos colegas, e aos lulistas-petistas, para conhecimento...” Perceberam a sutileza, ou falta dela? Lamentei, mas me calei.

    De repente quem tenha optado por continuar a ser petista, direito que ninguém pode negar a ninguém, embora não seja o meu caso, sai da relação de colegas e certamente de amigos de alguém que escreve, já que está ali estabelecida uma diferença, ou não? E é assim que alguns andam a tratar amigos só porque desconfiam, mas não provam, que amigos de longa data agora viraram, no foco deles, ... “inimigos”. Muito triste.

    Este é o nível, ou desnível, de uma campanha que me preocupa, para não dizer que me enoja. Que coisas deste tipo aconteçam lá por Brasília, ou nos confrontos estaduais, não me surpreendo, basta ver como se comportam os candidatos na TV.

    Agora com as denúncias de tantos dossiês a desabarem na cabeça de Lula, novamente, envolvendo pessoas diretamente ligadas ao Planalto, os candidatos arrumaram um “bom motivo” para deixarem de lado suas propostas, que é o que interessa aos eleitores, e ficarem a trocar acusações publicamente. Depois querem dizer que o brasileiro é que não sabe votar, que a culpa é do povo.

    Acorda gente, com essa corja de políticos que aí está ficamos mais perdidos que cego em tiroteio. Infelizmente nós, eleitores, não estamos sabendo dar bons exemplos, pelo contrário. Refiro-me mais a nós que freqüentamos diariamente este espaço virtual e que somos pessoas de um nível cultural, assim julgo, acima da média. Só que a média está a ser empurrada para baixo. Onde vamos parar?

    O que anda prevalecendo em certas comunicações que recebo é um forte sentido de rancor. Outros amigos andam se “encolhendo”, evitando me escrever ou manter um debate sem preconceitos nem ódios mal disfarçados. Querem seguir num monólogo onde o que escrevem ou repassam eu tenha que aceitar calado. Parece que ainda não me conhecem, mesmo com tantos anos de convivência. Uma pena.

    Quem quiser dialogar, trocar idéias, tudo bem, estarei sempre aberto, agora, me impor posição ou críticas das quais eu discorde, vou responder, sempre.

    Gente, não sou petista, mas não sou burro, não sou petista, mas não sou cego, não sou petista, mas não sou elitista nem preconceituoso. Desculpem, pois sei que às vezes ser franco, ser autêntico, ser sincero desagrada a certas pessoas. Mas eu não vou mudar nem aos 74 anos nem nunca mais.


    Francisco Simões. (Setembro/2010)