Crônica
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    GENTILEZA GERA GENTILEZA
     


    Amigos, eu conheci pessoalmente, andando pelas ruas do Rio, anos 60, 70 e 80, aquele cidadão alto, magro, com uma barba imensa, um olhar tranqüilo, fala sempre mansa, e atitudes pacíficas. Ele gostava de dar flores às pessoas, nas ruas, nos ônibus, nos trens, nas barcas, durante a travessia Niterói – Rio, etc.

    Quem era ele? Justamente o personagem conhecido como Profeta Gentileza. Outro dia eu assisti a uma reportagem no Globo Repórter sobre sua incansável campanha em favor da paz, do entendimento entre as pessoas, cumprimentando a todos, pregando a paz, o amor e gestos de gentileza. O amor que anda tão ausente.

    Alguns o consideravam louco, mas, na minha opinião, loucos eram, e são, os que desconsideravam (e hoje ainda desconsideram) suas mensagens. Ele nasceu na cidade de Cafelândia (SP), em 11/04/1917 e faleceu em Mirandópolis (SP), em 28/05/1996, com 79 anos de idade. Seu nome verdadeiro era José Datrino.

    Gentileza costumava dizer... “não dê dinheiro a padres... não dê dinheiro a pastores... nem ao Papa... são todos traidores”. Não, meus amigos, louco ele não era. Ele sabia das coisas, sim. Aos que o chamavam de louco, ele respondia: - "Sou maluco para te amar e louco para te salvar". Ele não pregava qualquer religião, apenas acreditava em um Deus e na Natureza. É a minha atual posição.

    Datrino fora proprietário de uma empresa de transportes. Sua história como Profeta Gentileza começou, ao que se sabe, quando ele presenciou um grande incêndio no Gran Circo Norte Americano, em Niterói, no dia 17/12/1961. Naquela noite morreram cerca de 500 pessoas, a maioria crianças.

    Seu lema era justamente este “Gentileza gera Gentileza”. Carregava uma grande tábua onde estavam escritas mensagens, todas em favor da paz e do entendimento entre os seres humanos. Andava calmamente pelas ruas, inspirava-me confiança. Jamais teve qualquer atitude de violência que eu visse ou soubesse.

    Fiquei surpreso ao ler certo artigo escrito por um jornalista e uma professora, publicado na edição do JB de 21/02/2010. Os autores diziam que conviveram com Datrino e afirmaram que ele, apesar de falar em gentileza como um mantra, era "agressivo, moralista e desbocado [...] Vociferava, ofendia e ameaçava espancar transeuntes, ao ponto de às vezes ser necessário chamar a polícia para acalmá-lo.”

    Afirmaram ainda que "Suas principais vítimas eram as mulheres de minissaia ou com calças apertadas, de cabelos curtos, que usavam maquiagem, salto alto e adereços [...]”- Sinceramente eu nunca ouvi falar nada a respeito disto. Entretanto, conhecendo bem os seres humanos como conheço, admito, sim, que uma pessoa como ele sofresse eventuais provocações que o levassem a atitudes de defesa que pudessem gerar interpretações como a que deram os autores do artigo. Só isso.

    O que posso dizer do que sempre testemunhei e ouvi sobre ele antes é que gostava de levar palavras de amor, de bondade e de respeito pelo próximo e pela natureza a todos que cruzassem seu caminho. Algumas vezes testemunhei isto na rua.

    Se ele não merecesse as homenagens que lhe foram feitas, após a morte e mesmo em vida, o excelente Gonzaguinha não teria composto uma música, anos 80, quando Gentileza era vivo, em que fala da sua pregação, do seu sorriso, de suas andanças, sempre querendo ajudar. Igualmente a cantora e compositora Marisa Monte, autora de tantos sucessos, compôs uma música nos anos 90 em que fala do mesmo personagem. Mais abaixo poderão ouvir as canções e ver os dois vídeos.

    Um refrão se repetia nas tábuas que carregava e depois no viaduto do Caju: "Gentileza gera gentileza, amor". Convidava todos a serem gentis e agradecidos. Na verdade, nosso personagem anunciava algo como um antídoto à brutalidade de nosso sistema de relações humanas, hoje mais justificado do que nunca.

    Certa vez ele decidiu inscrever os ensinamentos ligados à gentileza que pregava em 56 pilastras do viaduto do Caju, que se estende por 1,5 quilômetro até a Rodoviária Novo Rio. Alguns pichadores, posteriormente, sujaram tudo e autoridades do Rio tomaram a decisão mais desastrosa possível: mandaram pintar novamente todas as pilastras com aquele cinza, meio tristeza, meio morte.

    Diante da revolta popular eles mudaram de idéia e tudo foi recuperado sob a orientação do Prof. Leonardo Guelman. Este lhe dedicou um trabalho acadêmico, rigoroso, acompanhado de vídeo e um excelente CD-ROM com o título “Universo Gentileza: a gênese de um mito.”

    O parágrafo abaixo retirei, pelo GOOGLE, da “Wikipédia, a enciclopédia livre”. A mim pareceu que o autor foi muito feliz na análise e na conclusão da crítica:

    “A crítica da modernidade não é monopólio dos mestres do pensamento acadêmico como Freud com seu "O mal estar da civilização" ou a Escola de Frankfurt de Horkheimer e seu "O eclipse da razão", ou Habermas com o "Conhecimento e interesse" ou mesmo toda a produção filosófica de Heidegger tardio. O Profeta Gentileza, representante do pensamento popular e cordial, chegou à mesma conclusão que aqueles mestres. Mas foi mais certeiro que eles ao propor a alternativa: a Gentileza como irradiação do cuidado e da ternura essencial.”

    Como escreveu alguém “Gentileza foi precursor, sob a linguagem popular e religiosa, de um novo paradigma civilizatório urgente em toda a humanidade.”

    Termino este texto com as palavras que encerram o bonito vídeo de Marisa Monte: “O Profeta Gentileza pregou por 40 anos o amor e a gentileza pelo Brasil.”

    Veja o vídeo e ouça Marisa Monte neste link:
    http://www.youtube.com/watch?v=VKnVAZHehV0&feature=related

    Veja o vídeo e ouça Gonzaguinha entrando por este link:
    http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:1Vs6vBW6OSMJ:
    www.bastaclicar.com.br/musica/letra_musica_mostra.asp%3Fid_musica%3
    D13280%26id_album%3D1137+v%C3%ADdeo+de+Gonzaguinha+cantando+
    GENTILEZA&cd=2&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br

    Vários outros vídeos podem ser vistos no Youtube sobre este personagem.


    Francisco Simões. (Setembro / 2010)