Crônica
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    SÃO JOÃO NA CIDADE DO PORTO


    Na noite de 23 para 24 de Junho, eu assisti ao vivo, ou em directo, pela RTPI, a magnífica festa dos fogos de artifício na cidade do Porto, em Portugal. É uma festa, meus amigos, repleta de tradições.

    Inicialmente tivemos um longo e excelente show musical realizado ali, bem próximo às margens do Rio Douro. Tudo ao ar livre. Milhares de pessoas se deslocaram até lá para assistir. Havia uma multidão imensa que se perdia no horizonte das ruas próximas. Tudo maravilhoso.

    A festa de São João se estende por todos os bairros da cidade do Porto, e não só lá. É uma das tradições mais respeitadas e comemoradas em Portugal. Quando eram 20 horas, aqui no Brasil, meia-noite lá, começou o lindo e grandioso show de fogos de artifício. Muito lindo em quantidade e variedade.

    O espetáculo multicolorido é acompanhado por músicas variadas e dura cerca de 40 minutos, algumas vezes, até mais. Alguns consideram que este espetáculo está ao nível dos melhores do mundo. E é verdade, creiam.

    As imagens apresentadas pela RTPI nos encantaram, especialmente quando nos exibiam algumas aéreas, aparecendo ao fundo grande parte da cidade invicta (Porto), abaixo o Rio Douro e à direita a bonita ponte D. Luís. Em duas oportunidades com comboios atravessando.

    Em certo momento minha memória me arremeteu ao ano de 1947. Meus pais foram morar em Portugal por cerca de um ano e levaram os filhos. Nós éramos ainda apenas seis.

    Eu tinha dez anos e completei onze numa festinha íntima na praia de Espinho. Na noite de S. João, em 1947, estivemos presentes na cidade do Porto, no mesmo lugar em que naquela noite eu me emocionava ao ver, pela TV, a repetição, agora de forma bem mais grandiosa, do que nós testemunháramos em 1947.

    Pelos bairros há muitas atividades que se repetem e que estão incorporadas à história daquela festa. É o caso do lançamento ao ar de pequenos balões de ar quente, e dos saltos sobre as fogueiras, como na minha infância era tão comum mesmo aqui no Brasil, em Belém do Pará. Quem vive em cidade grande cresce desconhecendo coisas como essas. São os arraiais populares.

    No Porto, em alguns bairros, consta que a festa dura até as quatro ou cinco horas da madrugada, quando a maior parte das pessoas então regressa a casa. É hábito os mais resistentes, geralmente os mais jovens, claro, depois da festa no Porto, percorrerem a pé toda a marginal desde a Ribeira até a Foz do Rio Douro, onde terminam a noite na praia, aguardando o nascer do sol.

    Entre as tradições, curiosidades e talvez algumas crendices relacionadas com a Festa de S. João, no Porto, eu li algumas coisas que destacarei agora, aqui:

    “Festa cíclica, de raiz pagã, que assenta, fundamentalmente em “sortes” amorosas, encantamentos e divinações que se devem relacionar, por um lado, com o casamento, a saúde e a felicidade, mas que andam também estreitamente ligadas aos antigos cultos pagãos do Sol e do fogo e às virtudes das ervas bentas, ao orvalho, às fogueiras, à água dos rios, do mar e das fontes.”

    ”Quem saltar a fogueira na noite de S. João, em numero ímpar de saltos e no mínimo três vezes, fica por todo o ano protegido de todos os males.”

    ”Diz a tradição que as cinzas de uma fogueira de S. João curam certas doenças de pele. Para certos males, são benéficos os banhos que se tomem na manhã do dia de S. João, mas antes do Sol nascer. No Porto, os que os tomavam nas praias do rio Douro ou nos areais da Foz, valiam por nove...”
    “Segundo um conceito antigo as orvalhadas eram entendidas como o suor ou a saliva dos deuses da fertilidade. Uma outra velha tradição assegura que os namoros arranjados pelo S. João são muito mais duradouros do que os que se formam pelo Carnaval... “que não vêm chegar o Natal..."


    Voltando à transmissão da RTPI, reafirmo que foram momentos realmente de forte emoção para mim que, junto com Lena, assistia a tudo sem desgrudar os olhos da tela da TV e comentava com ela minhas recordações.

    É amigos, eu mergulhara forte no meu passado, liberei minha emoção para que se liquefizesse e então comecei a balbuciar para Lena, com a voz meio embargada, a letra de uma bonita canção portuguesa que diz... “pode ser saudade... pode ser saudade...”


    Francisco Simões. (Junho/2010)