Crônica
fm.simoes@terra.com.br
  • Poemas
  • Crônicas
  • Biografia
  • Fotos
  • Prêmios
  • Produção e Administração

     

    FUTRICAS, MUTRETAS, SELEÇÃO E COPAS DO MUNDO

    (Capítulo primeiro)


    Amigos, há histórias que vêm de longe, muito longe, e não são novidade, apenas agora a mídia tem mais poder, os assuntos são mais badalados, e as disputas entre emissoras também. Geralmente ganha quem tem “a força”. Mas nem sempre.

    Vamos voltar no tempo, a 1958. Naquele ano ganhamos nosso primeiro título mundial na Suécia. Não pensem que o técnico, Vicente Feola, foi poupado por parte da imprensa de então, não mesmo. Pegavam no pé dele dizendo que o técnico não mandava no time, que vivia cochilando nos treinos e até em alguns jogos oficiais. Em certos casos pregavam que era Didi quem realmente mandava no time do Brasil. O todo poderoso do nosso futebol era Paulo Machado de Carvalho. Sabiam que no jogo decisivo, em 58, não tínhamos uniforme para usar?

    Explico: nosso uniforme era amarelo, igual ao da Suécia, dona da casa e que decidia com o Brasil aquele Mundial. O que se sabe é que os próprios suecos emprestaram aos brasileiros o seu uniforme azul, reserva. Depois lembraram que faltava ter o distintivo da então CBD (hoje CBF). Contam que os nossos jogadores é que costuraram os tais distintivos em suas camisetas na noite da véspera do jogo.

    Se alguns hoje se queixam das regras rígorosas do nosso Dunga, saibam que o “dorminhoco” Feola impôs regras mais rígidas para a seleção na Suécia. Os jogadores receberam uma lista de quarenta (40) coisas que eram proibidas de fazer, incluindo usar chapéu ou guarda-chuva, fumar enquanto vestiam uniforme oficial e conversar com a imprensa fora dos locais designados. Isto em 1958.

    Nossa seleção era o único time que havia levado um psicólogo. Diziam que era por causa das “memórias de 1950, que ainda afetavam alguns atletas”. Naquela Copa foi que Pelé estreou, com apenas 17 anos. Quatro anos depois, já em Santiago do Chile, 1962, ele viria a se contundir seriamente logo na segunda partida e quem carregou o time nas costas pode-se dizer que foi o Garrincha. Até gol de cabeça ele fez. Consta que Garrinha jogou com febre a partida decisiva. O time era praticamente o mesmo de 1958 e acabamos conseguindo o bi campeonato mundial. O técnico do bi foi Aymoré Moreira.

    Sobre futricas, fofocas e coisas afins, na Copa de 1966 nossa seleção foi muito prejudicada por influências políticas. Todos os grandes clubes, ao que se sabe, queriam ter jogador na equipe principal do Brasil. Na reta final de preparação da seleção Vicente Feola tinha 46 jogadores em seu plantel, quando só poderia usar 22. Com tanta fofoca e muita gente mandando, acabamos tendo uma das piores participações em Copa do Mundo. Saímos na primeira fase. Isto em 1966.

    Levando as fofocas e influências outras para o plano internacional, a Copa da Inglaterra, ou a de 1966, na qual Portugal ajudou em nossa eliminação metendo-nos 3x1, a partir da fase de jogos eliminatórios, as arbitragens foram um desastre. Esclarecendo: desastre para os adversários da dita Inglaterra. Cito só dois importantes “exemplos”, ou maus exemplos: A Argentina foi vencida por um árbitro mal intencionado, e depois a Alemanha, na decisão, também. O jogo foi para a prorrogação e ali valeu até gol, para os ingleses, quando a bola nem entrou, nem cruzou a linha de gol. Foi um escândalo dos maiores na relação de algumas mutretas ocorridas em Copas de Mundo.

    Em 1970, no México, ganhamos o tri campeonato mundial. Hoje todos endeusam aquele time, aqueles jogadores, mas saibam que, ainda no Brasil, jogaram um amistoso com o Atlético Mineiro, dias antes de viajarem, e perderam: 2x1. A seleção saiu daqui vaiada e desacreditada. Muitos jogadores já estavam em fim de carreira, inclusive Pelé. Acabou sendo uma das participações mais brilhantes do Brasil em Copas do Mundo, é verdade. Hoje é fácil dizer isso.

    É preciso que se diga, a bem da verdade, que quem formou aquele time de “feras”, como ele costumava chama-los, foi o técnico e jornalista João Saldanha. Com todo o respeito ao Zagalo. Este só entrou após um entrevero do Presidente Médici com o então técnico. Saldanha recebera ordens de convocar o jogador Dario, o Dadá “maravilha”. Como não admitia interferência em seu trabalho e nunca levou desaforo pra casa, teria dito ao presidente que se preocupasse com os assuntos do país, pois da seleção cuidava ele. Aí foi que entrou Zagalo... e o Dario, claro.

    Na época, mesmo sendo um destacado jornalista, hoje considerado um dos mais brilhantes na profissão, João Saldanha teve problemas e muitos com colegas. Sofreu muita perseguição, além da política. Quando comentavam interferindo no trabalho dele à frente da seleção, Saldanha ficava uma fera e não os poupava com críticas ácidas, severas, e fazia denúncias sobre a incompetência de alguns.

    Isto me disse outro dia um jornalista da velha guarda, o Expedito Leal, e eu endosso, pois sou daquele tempo: “Basta recorrer aos jornais da época para ver que Saldanha vivia às turras com jornalistas. Chegou a dizer “na lata” de alguns que o que eles escreviam não era o que saía nos jornais, pois lá quem escrevia realmente eram os “copydesk” (redatores) e se referia especialmente a alguns ex jogadores ou treinadores que assinavam colunas.”

    Então, meu amigos, o Dunga, que hoje anda a ter que digerir uma perseguição injusta e mesmo covarde por parte de nossa mídia, pode ser considerado um anjinho diante da postura e das ações de João Saldanha quando se tratava de defender o seu trabalho. Saldanha nunca teve medo de cara feia, nem se importava com os efeitos que viessem a ter suas reações. Era um grande homem. Infelizmente morreu de repente quando estava na Itália, trabalhando para a Rádio Nacional, do Rio, durante a Copa de 1990.

    Como vêem, este tipo de perseguição, fofocas, intrigas, de gente da mídia contra técnico de seleção não começou hoje. Deve ser algum tipo de doença ou algum mal ainda não diagnosticado que afeta alguns desses profissionais de quatro em quatro anos e que, acredito, nem Freud explicasse.

    Curiosamente, após o grande feito de 1970, no México, o Brasil amargou 24 anos sem conquistar qualquer Copa. E não foi por falta de craques, de forma alguma, nem de técnico competente. Lembram de Telê Santana? Pois bem, o grande jogador, depois técnico da seleção, formou o que muitos consideraram a melhor seleção de todas as Copas, não obstante o sucesso de 1970. Acreditem.

    Disputamos em 1982 e 1986, com Falcão, Sócrates, Zico, Júnior, Leandro, Oscar, Eder, e tantos outros excelentes jogadores. Telê era reverenciado, e com justiça, internacionalmente, pelos belos espetáculos que sua seleção apresentava. É verdade, mas não ganhamos nada, só elogios. Um futebol arte, porém sem títulos.


    Na Copa de 1986 fomos eliminados nos penalties pelos franceses, nas quartas-de-final, e em 1982 havíamos sido eliminados pela Itália, ou por 3 gols de Paolo Rossi, que todos devem lembrar, e os italianos acabaram sendo os campeões. Esta Copa, realizada na Espanha, registrou uma verdadeira guerra entre os atletas italianos e sua imprensa. Os jogadores se reuniram e fizeram uma greve, ninguém dava entrevista a nenhum jornalista. Como vêem esta questão entre mídia e seleção vem mesmo de muito longe, e não ocorre só por aqui. E notem que os italianos ganharam todas e foram os grandes campeões, em 1982!!! Os jornalistas italianos, estes, com certeza, foram os maiores perdedores.


    Não obstante nossa desclassificação, chegamos a ser considerados pela mídia internacional como os “campeões morais” da Copa de 1982. De Telê quase só o Jô Soares reclamava em seu programa humorístico: “Bota ponta, Telê, bota ponta Telê.” Lembram do Zé da Galera?

    Hoje fico por aqui. Depois eu volto contando mais de nossas seleções após este terrível jejum de 24 anos sem título, incluindo outras fofocas e intrigas com a imprensa, como sempre.


    Francisco Simões. (Julho/2010)