Crônica
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    “RÁDIO REPÓRTER”
    “O MICROFONE ABERTO DO PASSADO”


    Amigos, há alguns anos dois jornalistas paraenses mantêm rotineiramente contatos comigo. Algumas vezes chegam a comentar meus textos e eu os deles, quando me enviam, claro. Trata-se do José Carneiro e do Carlos Castilho.

    Mais recentemente me escreveu outro jornalista de Belém do Pará, minha terra natal, o Expedito Leal. Ele também é advogado e procurador aposentado do Tribunal de Contas dos Municípios. Trocamos diversas mensagens a propósito de informações que ele precisava sobre o rádio paraense do passado. Dei minha modesta colaboração ao jornalista.

    Como sabem fui radialista nos anos cinqüenta, trabalhando tanto na Rádio Marajoara como na Rádio Clube do Pará. Foi meu primeiro trabalho, ainda com dezessete anos.

    Expedito estava se dedicando com afinco já há uns sete anos pesquisando, mergulhando inclusive numa época em que ele ainda era criança para ter os conhecimentos de que necessitava. Entrevistou vários e antigos radialistas, manuseou micro filmes, conseguiu muitas fotos antigas e outras mais recentes.

    Eu colaborei com duas fotos bem antigas, uma do grande baterista, o amigo Papão, Alexandre, que tocou com o Maestro Guiães de Barros, e outra onde apareço ao lado da então Miss Brasil, Terezinha Morango, o saudoso Corrêa de Araújo e Lustosa Filho (1958). O registro foi feito no auditório da Marajoara.

    O jornalista Expedito Leal trabalhou com muita perseverança produzindo um livro que mostrasse o rádio paraense desde os seus primórdios. Valeu o empenho, acreditem. O título desta minha crônica eu retirei do livro dele. Gostei muito.

    A narrativa usada pelo jornalista me fascinou. Fez-me ler com prazer não só o período de que participei da história da radiofonia do Pará como a que se seguiu, estando eu já no Banco do Brasil e depois quando vim para o Rio de Janeiro, 1960.

    A história do rádio paraense começou com a inauguração da PRC-5, a Rádio Clube do Pará, de Edgar Proença, no ano de 1928. A Rádio Marajoara surgiu somente em 1954 e pertencia aos Diários Associados.

    A partir do começo dos anos 60 surgiram em Belém outras rádios em AM e logo começou o advento das rádios FM. Ele foi muito fiel aos fatos e a pessoas que dedicaram grande parte de suas vidas ao engrandecimento do rádio paroara em todos os tempos.

    Destacou com justiça alguns nomes por terem se sobressaído na atividade de radialista, cada um em determinada área e em seu tempo. Usou também um imenso “Arquivo Aberto”, dividido em três partes no correr do livro. Fotos, muitas fotos, e saudades, muitas saudades de tantos que já se foram desta vida e outros que ainda permanecem vivos, como este Chico Simões, o bom Jayme Bastos, etc.

    Emoção ao ver uma foto antiga onde estão três radialistas em traje a rigor e no centro o meu saudoso mano José Simões, locutor e depois excelente comentarista esportivo, inclusive no Rio de Janeiro, no auge da Rádio Continental. Ele foi o fundador da Associação dos Cronistas Esportivos do Pará. Deixou também um livro onde fala de sua trajetória como radialista.

    Estou citado nominalmente em algumas páginas do livro de Expedito Leal, junto com tantos talentos que deveriam ser reverenciados sempre e sempre, jamais serem deixados de lado a um ostracismo injusto, mas muito próprio de tantos patrícios nossos. A maioria dos que ouvem rádio não sabem que nossa PRC-5, a Rádio Clube do Pará, no auge de sua glória, por exemplo, chegou a ser considerada a quarta melhor emissora deste Brasil. Alguém sabia? Pois é.

    À página 57, no capítulo “Vozes, Belas Vozes”, agradeço ao Expedito minha honrosa colocação entre os que ele classificou de “vozes sóbrias, suaves ou aveludadas”, na companhia de Advaldo Castro, Mário Herculano, Carlos Cidon, Antunes de Carvalho, meu mano José Simões, entre outros.

    O capítulo que versa sobre “Os Grandes Comunicadores” trata de um rádio mais modernizado, a partir dos anos 60, 70 e 80, seguindo os passos de emissoras do sul do país. Ele dedicou capítulos separados para alguns radialistas que se destacaram nessa atuação, dando-lhes o justo realce.

    O locutor, sua voz, a leitura mais escorreita, já não eram o mais importante, como ele diz, o locutor agora se comunicava direto com o ouvinte, geralmente por telefone. Ele interagia conversando, e assim valia mais o desembaraço neste tipo de comunicação, como, aliás, continua até hoje na maioria das rádios AM pelo país.

    No capítulo “Cada Um em seu Lugar”, à página 138, o autor se refere, a certa altura, à eleição dos melhores do rádio paraense, ocorrida em 1957, por alguns críticos da imprensa escrita. Entre tantos premiados, conforme sua participação ou criação, está novamente este Chico Simões, eleito então “O Melhor Produtor Humorístico do Rádio Paraense”. Eu escrevia e dirigia “Hoje Tem Espetáculo”.

    Na contra capa do livro o autor transcreve o que disse Bem Bagdikan, sociólogo americano, professor de jornalismo, autor do livro “Máquinas de Informar”: “O rádio é o mais fascinante veículo de comunicação. Informa, diverte, emociona, faz com que a gente mesmo crie, imagine a cena que nos transmite.” – Sei que é difícil a geração atual, “viciada” em TV, entender esta perfeita definição sobre o rádio.

    Fui agraciado com um belo exemplar do livro a que me refiro nesta crônica, o que agradeço publicamente ao jornalista Expedito Leal. Fico feliz quando vejo pessoas como ele que se empenham em valorizar o trabalho de tantos, marcando para sempre uma história que, coletiva ou individualmente, tem seu lugar no cenário nacional da radiofonia brasileira, com certeza.

    Um dos exemplos do que afirmo foi o saudoso Corrêa de Araújo, com quem trabalhei na Marajoara, anos 50, e que depois, vindo para a Rádio Tupi do Rio, a convite, foi eleito, na época, o Melhor Locutor do rádio carioca por alguns anos. Corrêa também atuou na Televisão como âncora de jornal noturno.

    Conversando com o Expedito sobre passagens do livro e acerca do imenso valor do resultado de seu exaustivo trabalho, disse-me ele ..."Qualquer publicação feita por
    mim, tem o objetivo e a preocupação com os que vierem depois. As gerações futuras só saberão dos fatos se alguém deixar algo para que eles possam tomar conhecimento. Fiz a minha parte e fico recompensado quando leio uma apreciação feita por pessoas que têm realmente o senso crítico da profissão.”


    Meus cumprimentos ao Expedito Leal por seu incansável e inestimável empenho e pela maravilhosa obra que construiu ao escrever “Rádio Repórter – O Microfone Aberto do Passado”. Recomendo a leitura.

    O projeto e produção do livro esteve a cargo da Editora Meta Editorial & Propaganda Ltda.



    Francisco Simões. (Maio / 2010)