Crônica
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    UM CIDADÃO CABOFRIENSE


    Um título honorifico desses agracia todo ano muitas pessoas em todos os Estados e talvez na maioria das cidades brasileiras. Essa honraria, na minha opinião, deveria ser concedida de preferência a pessoas que de alguma forma se destacam em determinada sociedade, colaboram com seu crescimento, enfim participam da mesma promovendo-a, destacando-a por este ou aquele meio. È a minha opinião.

    Infelizmente não ocorre sempre assim. O mais comum é vermos, em muitos casos, concederem aquela graça a pessoas que visitam eventualmente a cidade, sejam artistas, jogadores de futebol, políticos, sem terem raízes com o referido município. Acho uma injustiça com tanta gente que merecia receber aquele título honorífico.

    Falo isso mesmo tendo sigo agraciado, em Novembro/2000, pela Câmara Municipal aqui de Cabo Frio com o honroso título de Cidadão Cabofriense. Alguns devem estar curiosos como isso pode ter acontecido. Pois bem, vou lhes contar o que nunca dissera a ninguém nesta internet.

    Desde 1998, quando eu voltara de mais uma longa estada na Europa, eu produzi alguns vídeos, como amador. Fazia as imagens, depois as selecionava, editava tudo, o que dá um grande trabalho, escolhia a trilha sonora de cada vídeo, escrevia o texto e ao final fazia a montagem definitiva de tudo num pequeno estúdio que eu montara em um dos quartos de minha casa no bairro do Braga.

    Para tanto me valia de um microfone profissional e uma mesa de som, com muitos recursos, ambos comprados em Portugal, além de um fone de ouvido dos bons, da marca Sony. Claro que o narrador era também... eu. O trabalho de mixagem, imagem, mais som e narrativa, além de som ambiente já gravado, feito por apenas uma pessoa, para quem conhece o assunto, sabe que é coisa meio de louco.

    Realizei diversos vídeos sobre esta cidade que amo de há muito, a nossa querida Cabo Frio. Procurava enfocar assuntos diferentes, variava os temas, mas sempre girando sobre a nossa cidade. O fruto deste trabalho eu distribuía entre poucos amigos e enviava alguns para Portugal. Eventualmente fazia uma espécie de “cinema”, em casa, reunindo pessoas do condomínio em que eu morava. Tenho casa aqui em Cabo Frio há quase quarenta anos.

    Jamais alguém me pediu para que fizesse aquilo, nunca tive qualquer tipo de patrocínio, sempre assumi os gastos com o trabalho que desenvolvia. Tinha assim mais liberdade de ação e ninguém se intrometia na minha criação. Por outro lado, eu também escrevi poesias com inspiração na minha convivência com Cabo Frio. Uma delas é o PRIMAVERANDO, mas há outras.

    Igualmente escrevi crônicas sobre personagens que conheci nesta cidade, assim como “No Circo da Praia”, “Latas Vazias”, “As Meninas do Brasil”, entre outras. Escrevi também, e ainda escrevo, comentando sobre a invasão de turistas no verão e suas conseqüências. Em outros textos já falei das belezas deste paraíso hoje invadido por certa violência que parece um mal inevitável.

    Tenho uma coleção de fotos imensa focalizando Cabo Frio por bairros, praia, as dunas, o mar, o Forte, a parte antiga e histórica da cidade, o Canal de Itajuru, a linda vista do alto do Morro da Guia, etc. Muitas dessas fotos estão no meu site outras só em meu arquivo pessoal. Divulguei muitas delas junto com textos, como reportagens, sobre esta bonita cidade.

    Além disso fiz várias exposições das minhas Fotografias Artesanais, tanto no histórico prédio do “Charitas”, como numa nova área para exposições próximo à praia. Fui também o primeiro a realizar uma exposição, a convite da Diretora da Biblioteca Pública de Cabo Frio, naquele espaço, no ano de 2000. Propus e ela concordou em usarmos 20 fotos e 20 poesias, já que se tratava de uma Biblioteca.

    Nas minhas idas até lá, diariamente, encontrei muitos alunos que vão estudar, especialmente na parte da tarde, e que demonstravam interesse tanto quanto às fotos como quanto às minhas poesias. Documentei o evento filmando desde o coquetel na inauguração do mesmo e depois editei um vídeo. A Exposição teve cobertura da mídia local e durou 30 dias.

    Sabendo disso tudo, um amigo, falecido recentemente, comentou com um vereador sobre este meu trabalho voltado para Cabo Frio. Insistiu com ele que eu merecia receber o tal título de Cidadão Cabofriense. Certa vez o bom Cacao, o meu amigo falecido, apareceu lá em casa em companhia do político. Pediu que eu lhe contasse sobre o que já tinha feito promovendo a nossa cidade e lhe mostrasse um dos vídeos. Claro que não me furtei a atendê-lo.

    Curiosamente durante a conversa fiquei sabendo que o pai do vereador, Waldir M. de Aguiar Neto, fora funcionário do Banco do Brasil e trabalhara comigo no Andaraí, no então CESEC, final dos anos 70 e começo dos 80. O genitor de Waldir já havia falecido. O vereador garantiu que iria me indicar para receber o honroso título e eu me pus na expectativa durante bom tempo. Um dia recebi a comunicação de que o fato se consumara. Confesso que ainda estava descrente.

    Pois creiam, foi numa noite de Novembro de 2000 que compareci a uma linda cerimônia no clube mais bonito e elegante desta cidade. O salão estava superlotado. Havia muitos agraciados, cada qual indicado por um vereador. Comigo estava minha pequena, mas fiel “patota”: a saudosa Zezé, Marlene (minha atual esposa), os amigos Edinho e esposa, além de Cacao (o que me indicara ao vereador) com Vânia, sua esposa.

    Pouco antes de meu nome ser anunciado chegou outro amigo, o poeta Maurício Cardoso e sua esposa que haviam saído de uma festa na residência deles só para me abraçar naquele momento único. Minha felicidade aumentou. Maurício trabalhava na Secretaria de Cultura de Cabo Frio e realizara, semanas antes, o Maior Varal de Poesia do Mundo, no Canal de Itajuru, ao qual compareci com 36 poemas como convidado dele.

    Uma vez anunciado eu entrei pelo salão, junto à mesa dos trabalhos repleta de políticos locais, e fui recebido e abraçado por Waldir Aguiar, o vereador que apadrinhou minha indicação. Sobre nós, câmeras de televisão e alguns flash dos fotógrafos dos jornais locais. Confesso que foi difícil conter a emoção. Digo com total sinceridade. Jamais pensei em merecer tal distinção, mas era verdade.

    Dias depois resolvi escrever ao Sr. Prefeito de então agradecendo a concessão a mim feita do título de Cidadão Cabofriense e sugerindo que, daqui pra frente, entre as dezenas de títulos que concedem a cada ano estivessem pessoas como eu, ou seja, sem ter qualquer relacionamento mais próximo com políticos, mas que de alguma forma contribuam para o crescimento ou a divulgação da cidade.

    Nunca recebi qualquer resposta e, pelo que tenho sabido, a distribuição de títulos continua como sempre, isto é, o meu caso foi uma grande exceção. Ouvi, certa vez, o jornalista esportivo, de S. Paulo, Milton Neves, dizer que tinha recebido o mesmo título, porém estava devendo uma vitória a esta cidade. Quer dizer, nunca deve ter vindo aqui. E ele não é o único caso. Lamento que assim seja.

    Na minha modesta visão deveriam agraciar algumas pessoas que aqui trabalham, seja no comércio, em indústrias, profissionais liberais, artistas, escritores, poetas, jornalistas locais, mas com um currículo de serviços prestados a Cabo Frio, cada um no seu campo de atividade. Espero que um dia mudem o critério.


    Francisco Simões (Março / 2010)